Memórias da prisão

Atriz - Taylor Schilling interpreta Piper Kerman na história adaptada para TV (foto: divulgação)

Atriz – Taylor Schilling interpreta Piper Kerman na história adaptada para TV (foto: divulgação)

Histórias que acontecem atrás das grades passaram a chamar minha atenção desde que conheci a peça ‘Barrela’, escrita por Plínio Marcos (1935-1999) em 1958 e que ficou censurada no País até 1978.

Baseada em fatos reais ocorridos na cidade de Santos, a narrativa gira em torno de personagens amontoados em um xadrez enquanto esperam julgamento e, assim, vivem situações de confronto que colocam em questão a linha tênue da sobrevivência em um espaço regido por “leis” completamente avessas às que organizam a vida aqui fora.

Agora, com o livro ‘Orange Is the New Black’ (título sem tradução), de escritora norte-americana Piper Kerman, cuja versão em português foi lançada no mês passado, vejo novamente o desafio da sobrevivência dentro de um presídio engendrar episódios que testemunham a transformação de quem, ao encarar a realidade do confinamento, é obrigado a conhecer a si próprio para se manter vivo.

Também fundamentada em fatos reais, a narrativa de Piper foi adaptada para série de TV com produção da Netflix, estrelada pela atriz Taylor Schilling. A segunda temporada da série foi lançada em 6 de junho e uma terceira temporada está sendo gravada.

Na história, Piper conta sua experiência ao cumprir sentença de 15 meses em um presídio federal feminino, acusada de lavagem de dinheiro e envolvimento com tráfico internacional de drogas anos antes quando teve relação homossexual com uma traficante.

O livro com as memórias de Piper foi publicado originalmente em 2010. Traz detalhes escatológicos e cruéis da vida no presídio, em tom de comédia dramática contada por quem pertence a uma família abastada e tinha a vida sob seus pés, com emprego, noivado e tudo o mais de bom que a estabilidade, o dinheiro e a convivência familiar podem proporcionar.

Em comum com outras histórias do gênero, a narrativa de Piper mostra como a deletéria convivência com presas violentas e carcereiros e policiais corruptos tende a desumanizar a situação de quem cumpre uma pena.

Essa desumanização se traduz na perda da dimensão do outro, dimensão tão essencial para a sobrevivência, mas algo do qual só nos damos conta quando estamos em sua privação. Reinventar o outro é um exercício que se impõe para que não morra o amor e a esperança. E desse modo até mesmo relações afetivas passam por um processo de ressignificação. Estar lésbica dentro de um presídio é no mínimo um “estado” que passa longe dos preconceitos de quem condena a homossexualidade.

 
Capa OrangeOrange Is the New Black,
Piper Kerman, tradução de Cláudio Figueiredo e Lourdes Sette, editora Intrínseca, RJ, 2014, 304 págs.

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Peça de Plínio Marcos põe excluídos em cena

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

O desaparecimento do dinheiro que pertenceria ao cafetão Vado detona uma série de situações violentas que envolvem também a prostituta Neusa Sueli e o homossexual Veludo. Poderia ser o resumo de uma notícia, mas é a sinopse de Navalha na Carne, peça de Plínio Marcos (1935-1999). A montagem dirigida por Marcos Loureiro, com elenco formado por Anette Naiman, Fransérgio Araújo e Wilson Loria, estreia nesta sexta-feira, 30, no Teatro Garagem, na Zona Oeste da capital.

Por dar atenção aos excluídos e observar sua dor, o dramaturgo já foi chamado de voz dos que não têm voz. “Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando o pai escuta o filho chorando de fome”, afirmou certa vez. “Não faço teatro para o povo, mas faço teatro em favor do povo. Faço teatro para incomodar os que estão sossegados. Só para isso faço teatro.”

Vado e Neusa Sueli ameaçam Veludo durante a peça (foto: Bob Sousa)

Vado e Neusa Sueli ameaçam Veludo durante a peça (foto: Bob Sousa)

Neusa Sueli, Vado e Veludo são personagens do submundo entrincheirados em um quarto de bordel, marginalizados pela sociedade que oprime, humilha e intensifica a solidão. “São seres humanos que a classe média vê mas com quem não conversa e que o rico vê de dentro do carro blindado”, assinala Loureiro.

A violência intrínseca aos três personagens nem sempre é física. “Há na peça a opressão. São bichos acuados se comendo, o poder muda de mãos rapidamente. Os três têm coisas a dizer, o embate é significativo. Discutem-se intolerância, preconceito, poder”, destaca o diretor.

A peça foi encenada pela primeira vez em 1967 – dirigida por Jairo Arco e Flexa, com Edgar Gurgel Aranha, Paulo Villaça e Ruthinéa de Moraes –, mas Loureiro ressalta a atualidade do texto. “Os marginalizados ainda estão aí, ao nosso redor. O mundo está cada vez mais desigual, apesar de iniciativas como o (Programa) Bolsa Família”, diz.

São 25 pessoas por sessão – o que gera proximidade entre o público, situado praticamente dentro da cena, e os atores. Há no cenário referências a outros três textos do dramaturgo: Dois Perdidos Numa Noite Suja, O Abajur Lilás e Madame Blavatsky.

Marcos Loureiro conta que procura aprofundar o trabalho de interpretação, com a valorização do subtexto, “do jeito silencioso de contar uma história”. “A interpretação não está só na fala, mas também no silêncio. Uma fala começa na anterior.”

Direção de Marcos Loureiro. Com Anette Naiman, Fransérgio Araújo e Wilson Loria. Teatro Garagem: rua Silveira Rodrigues, 331, Vila Romana. Fone: 99122­8696. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 20h. De 30/5 a 6/7. R$ 40. Recomendação: 14 anos.

Plínio Marcos narra a miséria do cotidiano

Plínio Marcos expressou na literatura e no teatro a voz dos oprimidos

O dramaturgo e escritor Plínio Marcos (1935-1999) tem uma marca registrada, que é contar histórias de gente simples e sofrida, que sempre carece de alguma coisa fundamental na vida, seja um lar, uma família, um amor ou a própria consciência que permita andar na linha, respeitar o outro e conviver em sociedade.

No livro ‘Histórias das Quebradas do Mundaréu’, lançado em 1973 e relançado em 2003, o escritor apresenta 43 contos, organizados segundo os temas ‘bandidagem, futebol, samba, macumba, cadeia, amor e diversos’. Essas histórias na verdade foram originalmente publicadas no jornal ‘Última Hora’, de São Paulo, dirigido pelo jornalista Samuel Wainer (1910-1980).

Segundo o escritor Pedro Bandeira, que assina no epílogo do livro uma carta a Plínio Marcos “no céu”, quando o escritor chegava na redação com os originais manuscritos a lápis havia certo alvoroço dos jornalistas em torno dele para ler as histórias em primeira mão.

É claro que são todas histórias de loucura, nas quais os personagens se projetam por meio de seus desejos mais perversos e proibidos. Mas em sua carta Bandeira adverte que Plínio não fala “contra as coisas”, como muitas vezes foi taxado: “Todos os teus personagens são vítimas do absurdo sistema de exclusão da nossa sociedade, e é a favor deles que tu fala”.

Nos contos, Plínio Marcos observa e escuta histórias, como que flanando no mundo das favelas e do porto de Santos, sua cidade natal. “Eu sou um repórter de gente simples. Conto seus amores, suas desilusões, suas pequenas glórias e suas lutas cruentas para escapar da miséria”, afirma na apresentação.

Ele escreve por meio de frases feitas, lugares-comuns e gírias, como é a fala no cotidiano, e consegue com isso usar a força da linguagem para provocar no leitor imagens de realismo e de uma crueldade aparente, que se dissipa sob a compaixão pelo outro, que está nas entrelinhas de sua prosa.

Há momentos em que Plínio apela ao recurso da literalidade das situações para impactar o universo do leitor. Isso é o que ele faz, por exemplo, no conto ‘Se não tem tu, vai tu mesmo’, em que narra a tragédia de um ‘ladrão de galinhas’, expressão que estamos acostumados a usar apenas metaforicamente para designar quem vive do pequeno crime. Nesse processo criativo, fica claro que não há fronteira entre arte e loucura, pois a literalidade das situações é também uma manifestação da psicose.

Outro conto que me chamou a atenção foi ‘Uma história do Exu Gaiato’ sobre a desventura de Dona Isaldina, que o narrador descreve como uma “coroa” e “um bagulhão velho e piranhudo”, da favela da Barra do Catimbó, que recorre a uma mãe-de-santo para ver uma macumba que lhe traga um homem para aliviar a solidão. A tal da Babá Zenaide de Angola vai, então, em busca de um serviço da pesada, dispensa os orixás e convoca “a esquerda em peso”, uma legião de exus. Mas todos recusam o desafio, restando apelar a Exu Gaiato, a quem ela promete uma farta oferenda com cigarros, pipoca, cachaça “e muitos outros badulaques”. O exu surge na história como um personagem real, expressando a força da espiritualidade na sabedoria popular.

Histórias das Quebradas do Mundaréu,

Plínio Marcos, Mirian Paglia Editora de Cultura, SP, 2003, 180 págs.

Foto: Marcos Muzi