Mato Grosso do Sul produz carne às custas do sofrimento indígena, diz liderança Terena

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Uma das facetas mais dramáticas da desigualdade no campo no Brasil é a luta dos povos indígenas por suas terras (Foto: CPT-MS)

O estado do Mato Grosso do Sul tem, segundo o IBGE, mais de 60 mil indígenas, que lutam há décadas pela demarcação de suas terras, hoje ocupadas por fazendeiros. Nesse conflito, o saldo é amplamente desfavorável aos povos indígenas. O direito histórico à terra dos povos originários é desrespeitado pelo governo federal, que não toma as devidas medidas para demarcação dos territórios, e pelos grandes empresários do agronegócio local. No Mato Grosso do Sul, por mais absurdo que possa parecer, a vida dos milhares bois e vacas tem mais valor do que a dos indígenas.

“Essa carne (produzida no Mato Grosso do Sul) está saindo com sangue. Está sendo vendida, exportada, à custa de derramamento de sangue. É todo um povo que está sendo dizimado”, afirma Ana Sueli Firmino, indígena Terena da aldeia Buriti, do Mato Grosso do Sul, que participou de oficina organizada pela Oxfam Brasil em São Paulo com mulheres de diversos movimentos sociais, lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, para discutir a relação de mulheres do campo, a concentração de terras e o modelo de agricultura adotado no Brasil.

Em 2106 lançamentos o relatório Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural e nele mostramos diversos dados que revelam a grande concentração de terras no país, como o fato de as maiores propriedades terem sido as que mais receberam incentivos e foram melhoradas, com acesso a créditos, pesquisa e assistência técnica com o objetivo de produzir para exportação ou atender à indústria agroindustrial.

Uma das facetas mais dramáticas da desigualdade no campo no Brasil é a luta dos povos indígenas por suas terras. Enquanto a desigualdade de terras afeta a todos nós pelo êxodo rural, concentração de poder, produção de alimentos e impactos ambientais e sociais de um modelo monoculturista e latifundiário, são as populações mais vulneráveis e que dependem da terra para existir, como os povos indígenas, que pagam o maior preço por ela.

A entrevista que realizamos com professora Ana Sueli é a primeira de uma série que pretende dar um painel geral sobre a relação de mulheres com o direito à terra, desigualdade no campo e os impactos do agronegócio. “Para nós essa terra é fundamental, porque a terra para nós, povos indígenas é uma mãe. É dela que a gente tira o nosso sustento.”

Como você vê a questão da desigualdade de terra no Brasil?

É uma questão bem delicada para nós, os povos indígenas. O nosso governo, infelizmente, tem deixado a desejar com os povos indígenas. Na minha região, no meu estado do Mato Grosso do Sul, nós temos sofrido muito, porque é da terra que a gente tira o sustento, e infelizmente os nossos direitos à terra estão sendo negados. Nós temos esse direito, está em lei. A gente tem perdido guerreiros e guerreiras, crianças e anciões, nessa luta por esse direito. Que é legítimo, que é nosso, e que nós temos que correr atrás.

Qual o grande desafio do acesso à terra especificamente para as mulheres?

Para nós é fundamental, porque a terra para nós, povos indígenas, é uma mãe. É dela que a gente tira o sustento. Nossos antepassados sempre mexeram com lavoura, plantando, criando nossos animais. A maioria da nossa comunidade passa por necessidade. Temos hoje 2 mil e 90 hectares de terras, mas na realidade, pelo nosso direito, que os antropólogos viram para nós, deveria ser 17 mil hectares. A Funai foi lá, fez o levantamento, e viu que a terra é nossa. Mas o governo não quer aceitar que é nosso.

E quem é que está hoje com a terra de vocês?

São os fazendeiros, os latifundiários da nossa região. Porque a minha região lá tem muita criação de gado, pasto. A população tem crescido, tem aumentado, então está difícil para nós… As roças, o espaço das roças que a gente tinha para plantar é muito pouco, a terra já está cansada. Então, alguns anos atrás, a gente viu a necessidade de reivindicar essas terras. Toda a comunidade se levantou para refazer as retomadas necessárias. Porque se a gente não está hoje (nas terras), o que será dos nossos filhos e netos no futuro?

O que você diria para essas empresas que compram carne de quem está ocupando essas terras que são de vocês?

Faria um pedido, se estivesse frente a frente: não compre mais. Porque essa carne está saindo com sangue. Tem um preço muito caro a pagar. Essa carne que está sendo vendida, exportada, que esse povo está levando para fora, a preço de que? Derramamento de sangue. E todo um povo que está sendo dizimado. 

Área é marcada por disputas judiciais

A Terra Indígena Buriti foi demarcada em 1928, pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão que antecedeu a Funai, e homologada em 1991, com 2 mil hectares. Em 2001, um estudo antropológico da FUNAI reconheceu que a demarcação feita pela SPI havia deixado de fora 15 mil hectares de uso tradicional dos Terena de Buriti; e em 2010 o Ministério da Justiça publicou portaria declaratória reconhecendo a área.

Disputas judiciais pela área seguem desde então. Em maio de 2013, o indígena terena Oziel Gabriel foi morto a tiros durante uma ação policial de reintegração de posse para remover os índios da Fazenda Buriti. O governo federal então negociou a desapropriação com indenização em dinheiro, mesmo não sendo algo previsto na Constituição, das quase 30 fazendas localizadas ali. Porém o processo atingiu um impasse em 2015 e nunca foi retomado.

(Fonte: ISA – Instituto Socioambiental, website: https://terrasindigenas.org.br acesso em 07/05/2018).

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O ideário vivo do Major Quaresma

Os dez anos de cotas raciais nas universidades e os estudantes já formados, trabalhando como médicos, advogados e tantas outras profissões, são uma chama que mantém vivo o espírito do Major Quaresma, protagonista do mais famoso romance de Lima Barreto (1881-1922), presença obrigatória nas aulas de literatura e em vestibulares.

A conexão entre política de cotas e o romance ‘O Triste Fim de Policarpo Quaresma’ é inevitável porque o Major é alguém que dedica sua vida ao exercício de um amor à pátria, sonhando com um país solidário, que seria inclusivo e receptivo às diferenças, como mostram querer os governos do Brasil e de outros países da América do Sul atualmente.

O romance está disponível para cópia, sem custo, no site Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação. Aliás, toda a bibliografia de Lima Barreto pode ser acessada nessa página, que reúne 31 títulos, entre eles, ícones da produção do escritor pré-modernista, como ‘O Cemitério dos Vivos’, ‘Os Bruzundangas’ e ‘Numa e Ninfa’.

Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)
Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)

A utopia de Quaresma, de buscar um país socialmente justo e com identidade nacional, é algo que no romance se mostra inviável. Em seu afã ufanista, Quaresma vai ao parlamento pedir que o Brasil adote o tupi como língua oficial, e a partir daí segue uma saga patética e quixotesca, que pouco a pouco o leva ao isolamento. O romance é de 1911, e seu contexto histórico se situa no segundo governo republicano, de Floriano Peixoto, que presidiu o País de 1891 a 1894.

Praticamente todo o esforço de Quaresma consistia em viver de um modo brasileiro, em um país que tentava se modernizar com valores importados, e era conduzido com mão de ferro, apesar da mudança política.

Do ponto de vista da literatura, a abordagem da identidade nacional desenhada por Barreto soa como resposta à identidade forjada e idealizada pelos escritores do período romântico, como José de Alencar (1829-1877), que sustentavam o mito da convivência pacífica na formação da nossa sociedade.

Quaresma, ao contrário, vislumbrava a construção de uma identidade nacional ao lado dos excluídos e marginalizados, o que significava remar contra a maré, contra os interesses das oligarquias que dominavam o País e sufocavam o desejo de distribuição de riqueza.

Depois de ler o romance, vale também ver no You Tube o filme ‘Policarpo Quaresma, Herói do Brasil’, de 1998, dirigido por Paulo Thiago, com base no romance de Lima Barreto. Uma cena que marca o filme é um diálogo entre Quaresma e Floriano, no qual o herói defende a educação como um caminho para a construção do País, algo que o presidente mostra não fazer sentido naquele momento.  Hoje, no entanto, essa retórica de Quaresma se revela um tanto quanto atual.

O Triste Fim de Policarpo Quaresma,

Lima Barreto, Fundação Biblioteca Nacional, RJ, 104 págs.

Onde encontrar: http://www.dominiopublico.gov.br

Battisti conta os dias na carceragem da PF

Battisti no lançamento de ‘Ao pé do muro’, na USP: vítima da literatura

O que era para ser o lançamento de um livro virou um ato em defesa da inocência do ex-ativista italiano Cesare Battisti, que na quinta-feira apresentou aos estudantes da USP seu novo romance ‘Ao pé do muro’, obra que completa a trilogia em torno de sua biografia desde os anos 70, quando participava do grupo de esquerda Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Os outros títulos são ‘Minha fuga sem fim’ (2007) e ‘Ser bambu’ (2010).

“Sou vítima da caneta; se eu não escrevesse não teria passado por isso e como tantos outros refugiados italianos espalhados pelo mundo estaria levando uma vida tranquila”, afirmou Battisti, referindo-se à acusação de quatro assassinatos durante os anos 70, época em que as forças repressivas atuavam sob a máscara da democracia na Itália. No Brasil, o escritor ficou preso por quase cinco anos sob acusação de uso de documento falso.

Em liberdade desde junho do ano passado, cinco meses depois que o presidente Lula rejeitou o pedido de extradição pela Itália, Battisti espera agora exercer apenas a imagem de escritor perante a opinião pública, mostrando que não é o ex-terrorista monstruoso reclamado por aqueles que defendem sua extradição. “A Constituição do País diz que a extradição não pode se dar por motivos políticos e poucos casos são tão políticos quanto o de Battisti”, afirmou o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que defendeu o italiano.

O professor da Unicamp e membro da Anistia Internacional Carlos Alberto Lungarzo mantém um site na internet (http://sites.google.com/site/lungarbattisti/) em que publica as provas periciais de que Battisti foi julgado na Itália, em 1982 e em 1990, com procurações falsificadas pelas autoridades. “Cesare foi perseguido porque falou a verdade sobre tabus como a máfia”, afirmou.

O livro de Battisti, que primeiro foi lançado em março em Paris, foi escrito na carceragem da Polícia Federal em Brasília, onde o escritor ficou antes de ser levado para o presídio da Papuda. ‘Ao pé do muro’ é sua décima oitava obra. A história narra a trajetória de Augusto, um foragido internacional que vem ao País em busca de proteção.

“Augusto é uma projeção”, afirma Battisti, que fez um romance de caráter prisional. “Quando acabei de escrever esse livro, tomei consciência de um pensamento de Nelson Mandela, de que ninguém de fato conhece uma nação até que se veja em uma prisão. Eu conheci o Brasil por meio da palavra de seus presos”.

Ao pé do muro,
Cesare Battisti, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Martins Fontes, SP, 2012, 304 págs.

 

Foto: Divulgação

Filósofos encontram sentidos para a arte política

Cortella: política para a convivência

A corrupção na administração pública e na vida legislativa alimenta a ideia de que “política é coisa de idiota”.  Partindo desse conceito generalizado, que na verdade é um preconceito, os professores e filósofos Mario Sergio Cortella, da PUC-SP, e Renato Janine Ribeiro, da USP, elaboraram um texto em forma de diálogo sobre os sentidos de se fazer política nos dias de hoje, tempo de democracia, e o publicaram no livro ‘Política para não ser idiota’.

Considerando que no cotidiano temos papéis de pessoa e de cidadão, Cortella explica que ‘idiota’ (idiotés, em grego) significava na antiguidade aquele que só vive a vida privada, que recusa a vida pública ou o exercício da política. Temos então uma inversão com a crença de que “política é coisa de idiota” – na verdade, usamos esse artifício para destilar ódio, nojo das coisas que os maus políticos fazem e que parecem não ter nada a ver conosco.

Mas o governo, o Estado, os congressistas, as instituições públicas não são algo externo, “fora de mim”, mas resultam do exercício da cidadania, que é a ação política de cada um. O voto e a responsabilidade que ele representa comprometem o eleitor e o político, e isso muitas vezes cai no esquecimento daquele mesmo que reclama que a corrupção é coisa “deles”.

Janine: política na busca de felicidade

Os autores puxam a orelha dos educadores e das escolas: falta resgatar o verdadeiro sentido de ‘política’ – para os gregos, por exemplo, ela era o exercício da liberdade e a busca de felicidade – e dar referências para o aluno perceber que a cidadania é sua própria ação, que a política não está restrita à vida partidária.

Mas há ainda outras possibilidades de compreender a questão. “A política seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las”, afirma Janine, referindo-se às verdades, às determinações que governam nossa vida, muitas vezes, sem que tenhamos consciência, como, por exemplo, os valores e necessidades criados pela overdose de publicidade.

Política é também convivência. Ao sair na rua, ao entrar no metrô ou ônibus o indivíduo usufrui do espaço e do serviço público e exerce uma ‘política’ na relação com o outro anônimo, observando um código de comportamento. Melhorar a qualidade dessa convivência é um desafio atual, é um combustível da política hoje, tanto quanto combater a corrupção. Mas para isso é preciso enxergar o outro, perceber que a “minha autonomia” não precisa ferir o direito do outro.

Política para não ser idiota,

Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, editora Papirus 7 Mares, Campinas, 2010, 112 págs.

Fotos: Divulgação

Palavras como tiros de metralhadora sobre os valores vigentes

O roqueiro Iggy Pop e o escritor Michel Houellebecq, que virá ao País em julho

O lado polêmico e provocador do escritor francês Michel Houellebecq pode ser conhecido no romance ‘Plataforma’, que conta a tragédia de um ataque terrorista na Tailândia. O escritor compõe uma história permeada por ideias politicamente incorretas e coroa esse espírito com o ódio ao Islã. Para o leitor, não há como gostar de Houellebecq.

Nas páginas de ‘Plataforma’, o escritor transforma a literatura em uma espécie de metralhadora que atinge tudo aquilo que parecia verdadeiro na sociedade ocidental e acaba por montar um retrato realista e estarrecedor do nosso tempo. O romance foi lançado em 2001, antes do atentado de 11 de setembro contra as torres gêmeas em Nova York.

O eixo do livro é a história de Michel, o narrador, um funcionário público que trabalha com contabilidade de exposições de arte. Seu pai morre de forma banal, e ele recebe uma herança, tornando-se rico. Segue então em viagem para a Tailândia, em busca de sexo, e conhece Valérie, uma executiva da indústria do turismo, que se transforma em predadora capitalista na maior rede francesa de hotéis e industrializa o turismo sexual em países tropicais, tendo como clientes principais alemães e italianos.

Quando o livro foi lançado, Houellebecq foi acusado de ultraconservador. Nas páginas de romance, ele se define como de esquerda. A história é rica em pornografia, um homem faz sexo com uma menina de 15 anos, enfim, tudo que é valor desaba e pouco a pouco vai ficando evidente para o leitor que Michel, tanto o narrador quanto o escritor, fala na verdade da miséria afetiva do mundo do consumo e do lucro, da solidão e abandono como condição humana, e da morte.

O escritor é dono de uma percepção aguçada e de uma fluência que faz o leitor devorar as páginas. Para a crítica literária Michele Levy, “Houellebecq é uma espécie de profeta, dotado da capacidade rara de perceber o mundo com um grau de sensibilidade ímpar”. O livro é considerado também um exercício de luto e remete o leitor à biografia do escritor, que foi abandonado pelos pais aos seis anos, e passou a viver com a avó paterna, que se definia como comunista.

Não há como não polemizar e ao mesmo tempo concordar com Houellebecq. Em julho, ele virá ao País participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O tom cínico de seu romance se reproduz também em outras obras, como ‘Extensão do domínio da luta’ e ‘Partículas Elementares’.

Neste trecho, o narrador ataca a cultura da Europa:

“No Ocidente, a vida é cara e faz frio; a prostituição é de péssima qualidade. Além do mais, é complicado fumar em lugares públicos e quase impossível comprar remédios e drogas; trabalha-se muito, há muitos carros e barulho, e a segurança nos lugares públicos é péssima”.

Plataforma,

Michel Houellebecq, tradução de Ari Roitman e Paulina Watch, Editora Record, RJ, 2002, 383 págs.

Foto: Paris Review

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