Papel de escritor

Fabio – Diferentes caminhos na luta para transformar a realidade (foto: divulgação)

Fabio – Diferentes caminhos na luta para transformar a realidade (foto: divulgação)

Você pode encontrar muitas definições para o que é ser um escritor, mas uma delas é algo que se repete por gerações. O escritor é alguém que tem um desejo ardente de mudar o mundo, de transformar a realidade de violência e exclusão que toma conta do cotidiano.

Na semana passada, troquei vários e-mails sobre esse tema com o escritor Fabio da Silva Barbosa, que vive em Porto Alegre (RS). Tudo começou porque ele disse que se sentia “iluminado” por conta de um novo trabalho como educador social em um abrigo para crianças e jovens de zero a 17 anos em situação de vulnerabilidade.

“É um trabalho fantástico com menores de idade que sofreram situações de abuso, abandono. Os verdadeiros marginalizados já nasceram lançados à margem… Frutos do que o sistema joga para debaixo do tapete”, disse Fabio quando comecei a perguntar detalhes desse desafio, que vai também influenciar sua produção literária, já que o mundo marginalizado é a principal matéria-prima de seus contos e poemas.

Em nosso diálogo à distância, perguntei sobre a importância de ajudar esses jovens a rever o significado dos eventos traumáticos que, queira ou não, exercem grande influência sobre a construção da personalidade. Fabio afirmou que “existem crianças que chegam sem saber se comunicar, completamente arredias, e aí temos de ensinar coisas básicas como o afeto. O problema é que quando lidamos com indivíduos, lidamos com subjetividades e aí a coisa fica diversa demais. Falar do ser humano respeitando suas peculiaridades, sem enquadrá-lo em padrões pré-estabelecidos, é falar de seu próprio universo”.

Talvez o trabalho de Fabio como educador social não seja, em essência, tão diferente do trabalho de escritor. Ouvir o outro, ou dar importância à voz do outro, como ele diz, é algo que se coloca em qualquer situação que pretenda transformar a nossa experiência como sociedade. Um cidadão digno, pleno no exercício de sua cidadania, só existe se houver alguém que lhe confira um lugar na sociedade. Por isso, os pais são tão importantes para as crianças.

Da mesma forma, uma obra literária só existe se conseguir tocar a sensibilidade do outro. Não há nada em termos de literatura ou de qualquer outra arte que não dependa da instância do outro para ganhar existência no grupo social.

Na última sexta-feira, Fabio lançou em Porto Alegre o livro de poesias ‘Reboco Caído’, título homônimo ao zine que ele publica já há algum tempo. Seu editor define o novo livro como voltado à poesia punk, um rótulo que o escritor aceita: “Achei que tem tudo a ver com o trabalho”, afirmou. Quem quiser conhecer esse novo livro e adquirir um exemplar pode entrar em contato com a editora pelo e-mail: coisaedicoes@gmail.com.

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com o escritor por e-mail:

Descreva o seu trabalho: qual a localização (cidade e bairro), qual a instituição, qual a sua rotina e qual o perfil dos jovens com os quais você atua.

Descrever meu trabalho é sempre uma tarefa múltipla, pois sempre atuo em diversas frentes… Enfim… Mas pelo resto da pergunta vi que está querendo saber sobre meu mais novo trabalho remunerado. Talvez tenha participado de experiências tão insólitas quanto Bukowski para garantir meu pão de cada dia. Atualmente estou trabalhando no lance mais significativo no que diz respeito a trabalho remunerado. Não que despreze tudo que fiz até então, pois tudo que fiz resultou no que sou hoje e preciso ser quem sou para estar lá fazendo o que faço do jeito que faço. Ainda sim continuo aprendendo e me aperfeiçoando enquanto ser humano. Trabalho em um abrigo para crianças e jovens, de zero a 17 anos, meninos e meninas. É um trabalho fantástico com menores de idade que sofreram situações de abuso, abandono, estão em vulnerabilidade social. Os verdadeiros marginalizados, já nasceram lançados à margem… Frutos do que o sistema joga para debaixo do tapete. Não curto falar pontualmente do problema, pois em toda parte do Brasil podemos encontrar essas pessoas. São pessoas que com poucos anos e meses já têm um problemão. Não há futuro, perspectivas. Localizar eles numa determinada região seria dizer que isso acontece apenas aqui ou ali, com essa ou aquela pessoa. Isso acontece em toda parte o dia inteiro. O pior é saber que aquelas pessoas, completamente desamparadas, irão atingir a maior idade e um monte de idiotas, que não sabem nada do que acontece fora dos seus televisores, irão querer cobrar deles responsabilidade social, consciência política e um monte de coisas de que eles nem sabem o significado. Estou muito feliz de atuar hoje como educador social. Cada vez mais as pessoas ficam sem argumentos para dizer que dependo da sociedade para alguma coisa. Não trabalho para nenhuma empresa ou latifundiário. Trabalho de forma direta pela mudança de vida de pessoas que farão parte do futuro.

Há um modelo de atuação para o abrigo, ou seja, o trabalho dele está inserido em alguma política governamental de assistência?

O abrigo é resultado da união de uma ONG com o município, além de contar com a ajuda de colaboradores que se fazem presentes através de doações. Lógico que, embora o governo federal esteja muito abaixo das expectativas, existem políticas que ajudam bastante como um todo. Atualmente existem programas assistenciais que fazem com que determinadas crianças não precisem de abrigos como o que trabalho. Mas a mudança tem de ser maior. O ideal é que as pessoas não precisassem de nada disso. Ter uma vida digna deveria ser natural. Se contentar com pouco é quase o mesmo que se contentar com nada. Mas temos de ter consciência que não é a mesma coisa. O QUASE faz uma diferença muito importante.

Quantos jovens estão envolvidos com o seu trabalho? Esses jovens são institucionalizados (vivem sob resguardo da instituição) ou moram com familiares?

Lá é uma casa de acolhimento. De lá o futuro deles é definido. Quando o Estado e suas instituições definem que a família (quando há) não está cumprindo seu papel, não está sendo benéfica para o indivíduo, as crianças e adolescentes são enviados para lá. Daí nós acolhemos esse ser com todas as suas confusões e revoltas e tentamos fazer o possível até se resolver o que será feito. É o primeiro passo. É um processo muito complexo para se responder em apenas algumas linhas, mas podemos resumir dizendo que é uma situação provisória – que pode levar alguns anos, meses –, então a população é flutuante.  Os números e os casos variam muito. Existem os que têm contato com a família e existem os casos em que esse contato é prejudicial. Só vivendo dentro para entender.

Os jovens estão inseridos nas comunidades que habitam? Eles vão à escola? Como é a rotina desses jovens?

Depende do caso. A tentativa é sempre fazer o melhor para o acolhido. Existe o trabalho de devolvê-lo para a comunidade e para a família de origem, mas o problema é que nem sempre é possível. Tem crianças que chegam com meses de existência, com mães e pais desconhecidos. Como disse, cada caso é analisado de acordo com suas necessidades. Existem crianças que frequentam escola e há aquelas que ainda estão sendo preparadas para encarar uma sala de aula. Existem as que acabaram de chegar e precisa de uma vaga na rede pública a essa altura do ano. Existem os que necessitam de uma educação especial…

O que é um jovem em situação de vulnerabilidade na sua perspectiva? Você tem alguma crítica sobre a abordagem que a sociedade ou a mídia fazem sobre os jovens?

Um jovem ou criança em situação de vulnerabilidade é um menor de idade que está sofrendo com o abandono, com abusos diversos… Torturas… Traumas infinitos. A sociedade e a mídia preferem fingir que isso não existe. As pessoas querem acreditar que moram na Disneylândia.

Uma pesquisa feita pelo instituto de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (http://www.scielosp.org/pdf/csc/v14n2/a14v14n2.pdf) sobre eventos estressores (violência sexual, morte na família, entre outros) em jovens em situação de vulnerabilidade indica que as crianças e adolescentes institucionalizados sofreram mais esses eventos do que as crianças que moram com famílias em situação de vulnerabilidade. O que você pode dizer sobre isso com a sua experiência?

É sempre necessário analisar cada caso. Não tem como botar tudo num saco de gatos. É claro que ser mandado para um abrigo é sempre um trauma. Até o tipo de abrigo tem de ser analisado. Cada abrigo é um abrigo. Dei sorte de cair em um lugar onde as pessoas – ou, pelo menos, a maioria delas – tentam mudar a realidade sórdida em que vivemos. Uma coisa que me irrita nos teóricos é querer conhecer as coisas à distância. As situações, ainda mais quando falamos de seres humanos, têm de ser analisadas o mais perto possível. Num caso em que uma menina é abusada pelo próprio pai, por exemplo, a distância desse ente doentio é o melhor para essa criança e o abrigo se torna muito mais seguro que a família de origem. A outra opção seria qual? A rua? Existem muitas coisas. Não acredito em uma forma geral de se tratar o assunto. Até porque, hoje em dia, existem várias formas de abrigar. É um assunto realmente extenso, que não dá para tratar de forma superficial. Cada dia é um aprendizado.

Essa pesquisa, de autoria dos pesquisadores Michele Poletto, Silvia Helena Koller e Débora Dalbosco Dell’Aglio, afirma que “o impacto dos eventos estressores é determinado pela forma que eles ocorrem, mas também como são percebidos”. Você diria que o seu trabalho envolve a tentativa de buscar conteúdos e ‘ressignificar’ esses eventos que são fundamentais para a visão de mundo de um jovem? Ou o seu trabalho está em outra perspectiva, e qual seria ela?

O trabalho inclui isso e muito mais. Existem crianças que chegam sem saber se comunicar, completamente arredias, e aí temos de ensinar coisas básicas como o afeto. O problema é que quando lidamos com indivíduos, lidamos com subjetividades e aí a coisa fica diversa demais. Falar do ser humano respeitando suas peculiaridades, sem enquadrá-lo em padrões pré-estabelecidos, é falar de seu próprio universo.

Como você é um escritor, acredito que a interação com os jovens nesse ambiente de ‘trabalho’, digamos, também é uma fonte de inspiração e de informações para a criação narrativa. Estou correto, ou deve haver uma ética que impeça que o seu texto reflita a percepção de realidade apurada na interação com os jovens?

Meus personagens sempre saíram do meio marginal, da sarjeta, dos rejeitados. É claro que minhas experiências com essas pessoas irão interferir na minha visão de mundo e, com isso, no meu texto.

Entre os jovens em situação de vulnerabilidade, são muitos os que desenvolvem patologias psíquicas, como a psicose? Como isso é considerado no trabalho com os jovens?

Existe todo um acompanhamento de profissionais no assunto. Meu trabalho é amparado por toda uma galera com a formação apropriada. Mas como a formação não é tudo, é necessário que se tenham pessoas como eu, um jornalista e escritor, que saibam sentir e fazer a realidade ser sentida para lidar diretamente, de forma prática.

Você está lançando o livro de poesia ‘Reboco Caído – Reflexos e Reflexões’, que a página da editora no facebook indica como um título de ‘poesia punk’.  Como você define esse novo trabalho? Essa identidade com o movimento punk é importante para você?

O movimento punk foi importante para mim como tudo o que passei na vida. Tudo é parte da construção do meu eu. Esse título de “poesia punk” foi dado pelo Jeison, o cara da editora Coisa Edições. Eu achei que tem tudo a ver com o trabalho. É um trabalho que tem o mesmo nome do meu zine (Reboco Caído), mas que possui uma personalidade própria. É um trabalho bem diferente do e-book que lancei ano passado pela Lamparina Luminosa, o ‘Escritos malditos de uma realidade insana’. Diferente, mas com pontos em comum.

O livro será distribuído em bancas somente em Porto Alegre? Qual a estratégia de lançamento e como os nossos leitores podem adquirir o livro?

O lance é entrar em contato via internet com a editora. Pode buscar pelo facebook o nome da editora (Coisa Edições) ou mandar um e-mail (coisaedicoes@gmail.com). Lançaremos o livro em alguns eventos daqui de Porto Alegre. Estarei fazendo a segunda edição da ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’ (evento que criei no início desse ano), onde será o lançamento do livro. A história é correr atrás para conseguir o material. Sabe como é conseguir material independente e alternativo, ainda mais lançado por uma editora artesanal… Se o cara esperar encontrar nas grandes livrarias, tá fodido (no pior sentido da expressão).

Explique melhor o que é o evento ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’? Como a literatura e outras artes são contempladas nesse evento?

Acontecerá, no dia 3 de agosto, no Clube de Cultura de Porto Alegre, a segunda edição da ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’. O evento começará a partir das 16 horas, trazendo diversas formas de manifestação e expressão. Uma programação para quem curte conhecer e interagir. A primeira edição aconteceu em janeiro deste ano. A ideia continua a mesma da edição anterior. Agrupar quem faz, quem produz. Teremos palestras, debates, exposições, saraus, apresentações diversas… A parada é agrupar da música ao teatro, da pintura à cachaça… E por aí vai. Quem quiser dar uma olhada na programação é só visitar a página no facebook (https://www.facebook.com/events/646731178750879/?fref=ts). A Segunda ‘Tarde Multicultural Sem fronteiras’ promete ser uma ótima sequência.

Como você vê o conflito em Gaza? Você acredita que devemos ser solidários à causa palestina? 

Vejo como o extermínio de um povo. O que estamos assistindo é um genocídio em pleno 2014. Existem diversos filmes e escritos que esclarecem bastante a situação. Vou citar apenas um deles, que pode ser encontrado sem muita dificuldade na internet: ‘Palestina: História de Uma Terra’. O link para assisti-lo no youtube é https://www.youtube.com/watch?v=1MXBL0Mc6XM. Qualquer um, com o mínimo de informação sobre o que realmente está acontecendo lá, não tem como ficar em dúvida.

E sobre os manifestantes que foram presos?! O que é preciso dizer sobre esse problema? Em sua opinião, a realidade desses casos é diferente do que tem sido mostrado na mídia?

Como sempre, a realidade é completamente diferente do que é mostrado na mídia. E a maior vergonha é termos essa situação frente a um governo de uma pessoa que foi perseguida, taxada de terrorista e radical, presa e torturada. É uma vergonha hoje em dia permitir que aconteça a mesma coisa com os que se rebelam contra essa podridão que nos cerca. Isso tem a ver com a pergunta anterior. O Estado de Israel também está fazendo a mesma coisa que os nazistas fizeram com os judeus (com alguma diferença aqui e ali devido ao tempo que passou e ao aprimoramento dos massacres). Eu só fico pensando na vergonha que essas pessoas devem ter delas mesmas. Será que elas ficam tranquilas com suas consciências? Será que elas têm consciência? Na verdade, esses governos servem ao capital, não ao povo. O chamado governo é apenas a parte visível do esquema. É o que fica ali para dar aparência de escolha, de opção, de liberdade. E muitos ainda gastam energia discutindo, defendendo essa fachada. Quem acompanhou todo esse processo, que não vem de hoje, pela mídia alternativa e independente sabe que o que os grandes meios de comunicação estão fazendo não é informar e sim serem parciais, ouvir apenas um lado da história, deformar… Eles querem manter tudo como está a qualquer custo, nem que tenham que bater, prender, mentir… Mas a rapaziada não está pedindo arrego. Não há mais porque ter medo. A máscara está caindo. Por mais que as pessoas evitem sair da sua zona de conforto, está chegando a hora que não vai dar mais para viver de faz de conta.

 

 

A Laranja Mecânica e o andaime

Holanda – Torcedores concentram-se no Centro de Porto Alegre (foto: Claudio Medaglia – Portal da Copa)

Holanda – Torcedores em Porto Alegre (foto: Claudio Medaglia – Portal da Copa)

 

A Copa do Mundo 2014 é uma celebração. Para mim, a imagem emblemática dessa primeira fase dos jogos é a da torcida da seleção da Holanda ocupando com a cor laranja a avenida Borges de Medeiros e outros locais da área central de Porto Alegre, antes do confronto com a Austrália, do qual a Laranja Mecânica se saiu vitoriosa.

Cerca de 2 mil torcedores reproduziram a tradicional mobilização “Orange Square”, dando uma demonstração da alegria que veio para o País com o evento esportivo. Não bastasse isso, um dos gols mais bonitos desta Copa até o momento pertence ao atacante holandês Robben, ao driblar o goleiro Casillas na histórica goleada contra a Espanha.

E não param por aí as demonstrações de que o País está produzindo uma Copa memorável. A empolgação da seleção alemã com os brasileiros e a repercussão da Copa na imprensa internacional dão conta de que foi acertada a escolha do Brasil para palco do evento.

Neste momento em que jogos históricos são realizados a cada dia, uma nova consciência também emerge na sociedade. As ruas trazem as manifestações dos metroviários, do Movimento Passe Livre, dos sem-teto. Do ponto de vista político, falta muito ainda para o País avançar; as conquistas sociais precisam ser ampliadas, ainda são muitas as forças reprimidas pelo histórico modelo de uma economia excludente e elitista.

Mas da janela do meu escritório vejo que não basta a política para o Brasil se modernizar e ser uma nação à frente de seu tempo. Ali onde ninguém imagina, ninguém vê, dois operários da construção civil equilibram-se em um andaime improvisado para rebocar a parede externa de uma construção. Estão na segunda laje, a cerca de dez metros de altura, e cada vez que os observo tenho dúvida se estarão íntegros para assistir ao embate entre Brasil e Camarões nesta segunda-feira.

As relações de trabalho no Brasil são arcaicas. No mínimo, o patrão que mandou seus funcionários improvisarem um andaime com pedaços de madeira acredita, mesmo inconscientemente, que sua construção é mais importante do que a vida dos trabalhadores. A construção civil é o segundo setor em mortes por acidente de trabalho no País. Perde apenas para o setor rodoviário de carga. E isso a despeito da explosão de preços no mercado imobiliário nos últimos anos, que nem mesmo tem servido para modernizar as relações de trabalho, mas apenas reforça o modelo excludente de sempre.

Fogo e magia da paixão numa viagem de trem

Nós, leitores, costumamos achar que o conto é um gênero menor que o romance, que as grandes histórias, sim, é que consagram o escritor e lhe dão projeção. Mas isso é um mito, ou mesmo um tabu. Contos podem ter narrativas mais concisas, menos personagens, mas não são menores em termos de expressão literária e artística.

Faraco é mestre na arte do conto

Há contos que são obras-primas, e podem consumir tanto ou mais energia do escritor do que o romance, para depois proporcionar ao leitor emoções, pensamentos e imagens que ficam registrados como se ele próprio tivesse vivido a experiência narrada.

Foi o que aconteceu comigo depois de ler o conto ‘Dançar tango em Porto Alegre’, do escritor gaúcho Sergio Faraco, publicado em uma coletânea de noves histórias sob o título ‘A dama do Bar Nevada’ – uma edição mais recente, de 2011, traz também quatro contos inéditos nessa obra que foi originalmente lançada em 1987.

O conto pungente narra um encontro amoroso durante uma viagem de trem de Uruguaiana a Porto Alegre. Em meio à madrugada fria e úmida, um homem solitário de meia idade, mal vestido e sem foco profissional na vida encontra sentada ao seu lado uma jovem bonita, mas com o olhar perdido e melancólico.

Sem expectativas no primeiro contato, eles trocam algumas palavras, mas logo se entocam em uma cabine do trem, onde a garota diz ter o marido à beira da morte. “Quero esquecer meu marido, a doença, meu filho, o dinheiro, tudo… quero uma noite diferente…”, declara Jane ao seu amante ocasional.

A transa começa com estranhamento, mas aos poucos toma fôlego e cada um renasce de suas misérias, enlouquecendo na paixão. “Nem pensar em me comover com seu desespero, ela estava me pondo maluco com aquele propósito de dar-se em nome de um sofrimento”, confessa o amante para depois avaliar o efeito do encontro:  “…eram outros os olhos com que eu olhava ao meu redor…”.

A paixão muda o modo como enxergamos a realidade, e essa magia é algo que o conto proporciona com o texto genial de Faraco. A narrativa em primeira pessoa transporta o leitor para o lugar do amante; é o modo como a história é contada que faz o leitor entrar na viagem de trem.

Faraco é um contista consagrado e as outras histórias do livro são igualmente pérolas da literatura, como ‘Dia dos mortos’, que traz a desventura de dois gaúchos no Rio de Janeiro, ao fim da fatídica partida no Maracanã, em julho de 1950, quando o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo para o Uruguai. Ou ainda o conto que dá título ao livro, em que uma mulher em fase de decadência encontra somente no amor barato o caminho para mudar o significado de sua existência.

A dama do Bar Nevada,

Sergio Faraco, editora L&PM, Porto Alegre (RS), 1987, 107 págs.

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