Amor que acompanha

De todas as palavras da linguagem, a que mais me intriga é ‘amor’. Ela expressa a nossa humanidade como poucas. Pois se existe sentido para tudo o que criamos na civilização, com o ‘amor’ o sentido é aberto: a princípio está ausente e o sujeito passa a vida tentando encontrar significados para esse sentimento nobre, capaz de transformar sua existência.

Há tempos convivo com essa ideia, e por isso fui entrevistar o professor da PUC-SP e psicanalista Claudio César Montoto para que ele falasse sobre o amor nos dias de hoje. Montoto é autor de livros sobre o tema. O último deles, ‘Amor. Metáfora Eterna’, de 2012, resgata os sentidos da palavra desde Epicuro e Platão, na Grécia Antiga, passa por autores da psicanálise, como Sigmund Freud e Jacques Lacan, e faz uma leitura do que acontece na sociedade, que ele chama de “hipercapitalista”.

Montoto – Renúncia à paixão para alçar o amor (foto: divulgação)

Montoto – Renúncia à paixão para conquistar o amor (foto: divulgação)

“Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor”, afirma Montoto. Ele lembra que em Lacan o conceito de amor se relaciona a uma produção social, o que quer dizer que a experiência amorosa se articula com valores da cultura e, assim, o que importa é o amor romântico, a ideia de que a pessoa pode encontrar completude, a fusão com o outro, no estado de paixão. “Acreditamos que sempre existe a pessoa ideal e isso tem como resultado lançar o sujeito no processo de algo fadado ao fracasso”, afirma.

“É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é o contrário da completude”, diz Montoto. Para ele, o amor se insere em um contexto no qual a cultura empurra o sujeito no sentido da felicidade. “Mas não existe o estado absoluto e permanente de completude”.

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento. E sempre há um traço que faz com que o ser amado seja capturado: um cheiro, um olhar. “A paixão pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura, como é o caso da barriga de tanquinho”. Esse é um ideal compartilhado, um valor que muda o olhar. Todos desejam a tal barriga para estarem prontos para a paixão.

A verdadeira experiência amorosa, segundo Montoto, é construída a dois, no derrocar da paixão, a partir do conhecimento do outro, quando se dispõe a ter uma história em comum admitindo as diferenças. “Para amar é preciso renunciar à paixão e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada”.

Amor. Metáfora Eterna,

Claudio César Montoto, editora Bluecom, São José do Rio Preto, SP, 2012, 103 págs.

Onde encontrar: cmontoto@ig.com.br

Ou na Livraria da Vila: http://www.livrariadavila.com.br

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com Claudio César Montoto:

Entre as palavras da linguagem, não seria o ‘amor’ uma das poucas em que não há um sentido? Ou seja, inventamos uma palavra para algo que não existe e o sujeito passa a vida tentando encontrar seu significado?

O que é o amor? Em ‘O Banquete’, de Platão, Sócrates diz “a minha vida é só refletir sobre o amor”. Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor, é verdade, cada um busca dar um sentido para isso. Em Lacan, o conceito de amor se articula com uma produção social. É claro que é por meio de suas próprias tentativas que a pessoa que vai responder o que é o amor, mas essa experiência é articulada com a cultura e o mundo capitalista tenta difundir a perspectiva do romantismo do amor, a ideia de que a pessoa pode encontrar a completude, que sempre existe a pessoa ideal e essa ideia tem como resultado empurrar o sujeito no processo de algo que fadado ao fracasso, pois é uma ideia dada a partir do consumismo.

A felicidade não existe?

‘Você tem que ser feliz’, esse é o imperativo que se coloca para o sujeito, que na realidade fica em estado de abandono em meio aos objetos de consumo. É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é a antítese da completude. O amor insere-se em um contexto complicado porque o mercado empurra o sujeito no sentido da ilusão de felicidade. Não existe o estado absoluto de completude. Lacan diz “não procure a felicidade pelo mal que ela traz”. Ele assim indica que a cultura relaciona o amor com o estado de completude, o que quer dizer que existe uma crença de que somente no estado de paixão podemos encontrar a felicidade.

Mas se apaixonar não é inevitável?

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância, a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento do outro. E sempre há um traço que faz com que o outro seja capturado: um cheiro, um olhar… Nessa nossa conversa, estamos falando sobre como o amor se inscreve no inconsciente do sujeito, despejando sobre o outro anseios e ideais. Amor é como se fosse milagre na paixão. Pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura que oprime o sujeito, como é o caso da barriga de tanquinho. Esse é um ideal compartilhado com a cultura, um valor social que muda o olhar, todos desejam a barriga de tanquinho para estarem prontos para a paixão. A paixão é o processo de se amar no outro. Não se lida com o outro com suas diferenças, mas como uma parte de si mesmo. Os especialistas, os psiquiatras, que gostam de fazer cálculos dizem que a paixão dura de um e meio a dois anos. Não importa o tempo, o que é relevante é que a paixão está fadada ao fracasso. Não é uma questão de tempo, conhecer o outro é o mesmo que se desapontar com o outro. Então, as coisas começam a mudar se no percurso da paixão você percebe que apesar de o outro ser diferente pode-se construir um vínculo com ele.

A paixão não seria também uma fuga da castração que nos é imposta pela ordem simbólica?

A psicanálise nos ajuda a compreender que a paixão pode ser conduzida pela perversão, surgindo como uma forma de driblar a castração. A pessoa apaixonada não liga para a família, nem para os amigos, a ordem social para ela fica fora de questão. Esse pessoa também não precisa lidar com a falta, esse vazio interior que está em cada um de nós, que nos constitui. O mundo hipercapitalista diz que a pessoa sempre deve se apaixonar. A paixão é o motor do consumo. Mas quando o verniz da paixão começa a derreter surge aquela frase “você não é como eu achava que fosse”. Nesse momento, o olhar para o outro começa a mudar, afinal, a paixão não é o estado natural do ser humano, mas um estado de ilusão em que o sujeito apaixonado sonha que não precisa lidar com o outro, com suas diferenças, pois ele é igual ao sujeito apaixonado. Você pode viver sempre apaixonado, substituindo um por outro. Mas aí não se pode construir a relação amorosa de fato. Se acabo um relacionamento e começo outro, não há projeto de vida.

A paixão é o amor líquido, não?!

No livro ‘Amor líquido’, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fala da flutuação do fato de se estar constantemente apaixonado. Estar sozinho é representado como um fracasso e não como um estado necessário para a reflexão. A paixão é articulada com a lei de consumo dada pelo mercado – o celular fica obsoleto e o mercado vem pra isso, ou seja, compensar as quebras de ilusão. Quando a paixão cai, porque você começa a conhecer o outro, instala-se o desafio de criar o vínculo amoroso com o mesmo objeto, mas para isso é preciso reconhecer que o outro não é a completude. Nós não somos a completude para ninguém. Desça do salto porque você não é a completude para ninguém.

Mas que tipo de vínculo se pode construir?

Certamente, é o amor que acompanha. Para fazer parte da cultura, o sujeito renuncia à questão puramente física e busca estabelecer um laço mais elevado. E a literatura aborda tudo isso com liberdade. Veja o caso dos ‘encoxadores’ do Metrô. É o que todos fariam se pudessem deixar sua pulsão fluir. Assim, você deve observar que o amor tem um caráter sublimatório. O amor é uma suplência ao ato sexual puramente, é uma construção social que permite que eu tenha o outro sendo castrado. Mas a lógica do consumo diz para você sempre ter o estado de paixão que é o melhor, e quando a paixão acaba, você a substitui por outra. A pessoa fica obsoleta na sua vida, como se fosse um aparelho celular.

Mas e quando a paixão desemboca no ódio?

O desenlace da paixão pode ser também o ódio e há casos em que às vezes ele chega a unir mais do que o amor. Há casais que ficam juntos por ressentimento ou rancor, para cobrar um do outro as dívidas imaginárias assumidas, afinal, no ódio também se realiza o desejo. O ressentimento é um sentimento que se articula com a vingança e por isso não prescreve. Ele advém de um estado de paixão que não foi sustentado, porque sobreveio o conhecimento do outro, levando o sujeito a abandonar aquele estado inicial de prazerosa ignorância.

Relacionamentos superficiais são um sintoma do nosso tempo?

Neste início de século 21, é o desejo de estar apaixonado, logo, desejo de ignorância que prevalece. Os relacionamentos são superficiais, sua importância ocorre como se fosse medida pelas estatísticas, é mais importante a quantidade do que a qualidade. A metáfora do amor persiste e se desdobra no desconhecimento, quanto maior o desconhecimento, maior a ilusão de que se pode alcançar a completude. Mas para amar é preciso renunciar à paixão. Com certeza, em suas atitudes, haverá quem demonstre que amor é menos que paixão, mas o amor é construído a dois e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada.

Essa fluidez do amor é sintoma comum no divã?

Hoje em dia, o divã recebe analisantes que substituem uma relação por outra sem realizar um trabalho de luto quando a relação termina. O processo de luto significa um tempo para a reflexão, quando o sujeito fica consigo próprio para avaliar o que o outro levou dele com o fim da relação, afinal, só sabemos o valor da relação quando perdemos a pessoa desejada.

No seu livro você fala do amor como experiência e da paixão como vivência…

Existe um paralelo entre a paixão e o amor, pois enquanto a primeira está para a vivência (da quantidade, do próprio prazer) o amor é da ordem da experiência, no sentido da troca com o outro e da articulação conjunta de uma história. Na paixão, não há nenhum tipo de reflexão, a vivência é aquilo que mantém o sujeito em estado de ignorância. Nós podemos dizer que a diferença entre paixão e amor está para a diferença entre informação e conhecimento e entre vivência e experiência. As questões envolvidas pela experiência são algo mais articulado. Se você vai assistir a cinco filmes em um fim de semana, você terá apenas uma vivência, mas se você investe seu tempo em um diálogo, na conversa com o outro, você necessariamente troca experiências.

A literatura também não deixa de ter essa perspectiva do diálogo.

O escritor Umberto Eco fala da experiência do texto literário da perspectiva do leitor, que encontra diferentes formas de lidar com a literatura e que ela mostra diferentes possibilidades de mundo. A literatura no campo da experiência sempre mente, mas mentindo nos diz a verdade.  Os escritor Mario Vargas Lhosa escreveu ‘A verdade das mentiras’, uma obra em que ele defende a literatura como possibilidade de transformar a realidade. A literatura mostra para o leitor as diferentes construções de mundo, é uma experiência por excelência. Ser leitor é estar disposto a realizar um trabalho. A fantasia a partir do texto realiza um trabalho de sublimação e permite lidar com questões para as quais existem barreiras.

E qual seria a relação da literatura com a perversão?

A perversão captura o neurótico, afinal, o perverso realiza a fantasia que todos gostariam, mas recuam porque têm a estrutura neurótica. Veja, por que Paulo Maluf e Fernando Collor continuam a ser votados?! Eles são os perversos que nós gostaríamos de ser e a literatura vem um pouco para suprir ou trabalhar esse lado dentro de cada um de nós.

A personalidade de Padre Cícero

Padre Cícero – Anseio de alcançar a santidade (foto: divulgação)

Padre Cícero – Anseio de alcançar a santidade (foto: divulgação)

Padre Cícero (1844-1934) é um mito vivo no Nordeste, venerado por multidões de romeiros que vão a Juazeiro do Norte, no sertão do Cariri, Sul do Ceará, em busca de uma proteção espiritual ou comunicação com o líder, que no imaginário do povo há muito ocupa o lugar de santo. Atualmente, Padre Cícero, o ‘Padim Ciço’, é um dos primeiros nomes da longa lista de candidatos a beatos e santos, mas sem esperança que o Vaticano resolva qualquer coisa em curto prazo. O Brasil tem apenas dois santos: Frei Galvão e Madre Paulina.

Consagrado pelo povo por sua forte devoção aos pobres, Padre Cícero em sua época foi suspenso das atividades de sacerdote pela cúpula da igreja em Fortaleza, acusado de fanatismo religioso. O então bispo d. Joaquim não reconhecia um milagre testemunhado pelo padre, que viu por diversas vezes no momento da comunhão a hóstia transformar-se em sangue na boca da uma beata chamada Maria de Araújo.

A história da perseguição e inquisição do padre pela igreja é densamente explorada por biografias, mas um livro que agora é publicado em segunda edição avança um pouco mais nas especulações sobre a vida do sacerdote, por meio de uma biografia de linha psicológica, com o título ‘Padre Cícero: Biografia Psicanalítica’, de autoria do psicanalista Francisco Nóbrega Teixeira, de Fortaleza.

O livro é um exemplo do que se chama “psicanálise aplicada”: faz uma leitura do percurso biográfico do padre por meio dos conceitos da psicanálise, alcançando uma compreensão mais profunda de sua personalidade, e das forças inconscientes que desde a infância conduziram sua vida, manifestas principalmente na forte relação com a mãe.

A adoção da linha psicanalítica, no entanto, não deve assustar o leitor. Teixeira preocupou-se em fazer um texto para leigos e assim introduz o estudo com um capítulo que explica os conceitos da teoria analítica, como, por exemplo, narcisismo, libido, as fases de desenvolvimento da sexualidade infantil, a formação da consciência, entre outros, para depois ingressar na rede de relações familiares e ansiedades do sacerdote, que tocam a patologia da mania de grandeza.

Antes, porém, o livro apresenta um resumo factual e histórico da biografia do padre, permitindo que o leitor tenha uma noção do que foi a construção do mito em torno do Padre Cícero. Quando a leitura adentra a área da psicanálise, no entanto, o movimento que se dá é justamente no sentido oposto, de “desconstrução” do mito. Perseguindo as informações sobre sua infância, o autor mostra como surgiu o homem que se sentia predestinado à santidade e que orientava sua vida fundamentalmente pelos sonhos.

 

Padre Cicero - capaPadre Cícero: Biografia Psicanalítica,

Francisco Nóbrega Teixeira, editora Escrituras, SP, 2013, 184 págs.

Uma relação bombástica entre mãe e filho

Uma mulher tem o direito de não querer ser mãe e isso, por si só, seria suficiente para colocar fim à discussão. Mas não é bem assim que as coisas acontecem. Entre a falta de desejo de ter um filho e a pressão que marido, família ou a própria cultura exercem sobre a mulher, Eva Khatchadourian acaba por assumir o “roteiro pronto” da maternidade, mas se arrepende no momento mesmo em que descobre estar grávida.

Eva é a narradora do romance ‘Precisamos falar sobre o Kevin’, escrito na forma de uma sequência de cartas ao marido, Franklin, entre novembro de 2000 e 8 de abril de 2001. Eva faz uma revisão de sua vida como mãe a partir da chacina cometida pelo filho, Kevin, aos 16 anos, tirando a vida de sete colegas de escola, uma professora e um empregado da lanchonete. O adolescente era um exímio atirador de arco e flecha e o final do livro é surpreendente.

A obra é ficcional, mas também inspirada na realidade desses garotos “columbine”, cujos assassinatos em massa são alardeados pela mídia no mundo. Depois de ter sua vida fraturada pelo episódio na escola de um subúrbio de Nova York, Eva procura elaborar sua culpa com um discurso impactante, que admite que o ódio entre mãe e filho é um sentimento que se estabeleceu desde o princípio, quando o bebê se recusava a mamar em seu seio.

Eva e Kevin no filme de Lynne Ramsay: agressão e culpa (Foto: Divulgação)

Os planos narrativos do presente e do nascimento e infância de Kevin se alternam no discurso da mãe, que mostra que o filho representou angústia e privação, obrigando-a a se afastar de seus objetivos profissionais.

Para o leitor, o livro coloca em perspectiva a ambivalência de sentimentos, ou seja, o amor e o ódio que permeiam a relação com os filhos, e que são encobertos pela fala dos pais, que acreditam somente transmitir amor às crianças.

O romance foi publicado em 2003 e no ano passado ganhou sua versão cinematográfica, com direção da escocesa Lynne Ramsay. A relação às avessas chocou o público do Festival de Cannes, onde o filme foi apresentado pela primeira vez.

A história de Kevin é a do crescimento de um psicopata assassino. Mas é também uma denúncia da hipocrisia da sociedade americana e do mundo globalizado. Kevin é um sujeito, um monstrinho sarcástico, que brota no seio de uma sociedade paranóica, que pune os indivíduos de maneira doentia e exagerada.

Entre Eva e Kevin, o ódio é levado às últimas consequências, exaurindo a força dos personagens que nesse processo descobrem se amar. Em última instância, é do amor que trata o livro de Lionel Shriver, e mais do que isso, mostra como a relação entre mãe e filho é fundamental para a vida de cada um.

 

Precisamos falar sobre o Kevin,

Lionel Shriver, tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro, editora Intrínseca, RJ, 2012, 464 págs.

Jung para desvendar a simbologia dos sonhos

Jung concluiu ‘O Homem e seus Símbolos’ dez dias antes de morrer (Foto: Divulgação)

Os sonhos são fontes de enigmas e mistérios. Temos uma tendência a acreditar que eles podem antecipar acontecimentos, mas sobre isso há controvérsias. O fato é que os sonhos são como uma tela que projeta imagens relacionadas aos desejos e medos ocultos, guardados no lado inconsciente da mente humana.

Esse interesse pelo tema surgiu quando assisti ao filme ‘Um método perigoso’, de David Cronenberg, que traz a história do relacionamento e ruptura entre Sigmund Freud e o suíço Carl Gustav Jung, no começo do século 20, quando Freud criava a psicanálise. A relação é entremeada pela estudante russa Sabina Spielrein, que de amante e paciente de Jung se torna brilhante discípula de Freud. Há um momento no filme, quando Freud e Jung estão viajando para os Estados Unidos, em que eles interpretam um sonho de Freud, revelando seu caráter simbólico.

Depois do cinema encontrei em um sebo, com preço acessível, um livro que, digamos, dá asas ao universo dos sonhos. ‘O Homem e Seus Símbolos’, de Jung, é uma obra que procura desvendar a importância dos símbolos e para isso busca sua conexão com os sonhos, mostrando como as imagens e impressões noturnas estão ligadas ao inconsciente, marcado pelos símbolos da cultura, como os ícones da religião e as próprias palavras.

O livro não é um relato técnico de psicologia, mas uma composição em que Jung quis aproximar esse conhecimento do leitor leigo. A edição, com mais de 500 ilustrações, surgiu depois de uma entrevista de Jung para a emissora britânica BBC, em 1959, que obteve considerável sucesso. Além de Jung, o livro traz textos de seus discípulos, procurando analisar também a repercussão dos símbolos nos mitos e na vida moderna, nas artes, no indivíduo e no tratamento psicoterápico.

O livro é também uma oportunidade para conhecer os princípios da abordagem de Jung, que tem, por exemplo, os conceitos de inconsciente coletivo e de arquétipos, ou seja, os modelos universais que residem na imaginação, como na atividade dos sonhos, que cria situações e personagens inusitados.

Jung terminou o livro dez dias antes de sua morte, em junho de 1961. A publicação original é de 1964. Inicialmente, o autor recusava a proposta do jornalista John Freeman para a obra, mas aceitou o convite depois que teve um sonho em que se viu explicando sua ciência para uma multidão de leigos.

Um dos pontos fundamentais do livro é o entendimento de que o símbolo se define por ter algo de inconsciente em seus significados. Na religião, por exemplo, há muitas referências às paixões “demoníacas” ocultas no ser humano, o que é uma forma simbólica de se referir ao inconsciente humano.

O Homem e seus Símbolos,

Carl Gustav Jung, tradução de Maria Lúcia Pinho, editora Nova Fronteira, RJ, 2005, 320 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.

E o lobo da estepe mordeu Clarice Lispector

Clarice Lispector foi ‘devota’ da obra máxima de Hermann Hesse

Outro dia, lendo trechos ao acaso da mais importante biografia de Clarice Lispector, chamada ‘Uma vida que se conta’ (editora Edusp), escrita pela professora de literatura na USP Nádia Battella Gotlib ao longo de 20 anos de pesquisa, encontrei o que para mim representou um pequeno tesouro, umas poucas páginas sobre influências literárias de Clarice na juventude, destacando as marcas deixadas pelo romance ‘O lobo da estepe’, do escritor alemão naturalizado suíço Hermann Hesse (1877-1962).

Chamo essa história de ‘pequeno tesouro’ porque ela é um dos primeiros atos na formação da grande escritora, apontando o caminho que seria seguido, seu rumo literário. A professora Nádia resgata uma entrevista de Clarice a Leo Gilson Ribeiro, do Jornal da Tarde, em fevereiro de 1969, em que afirma: “Depois desse livro, adquiri confiança daquilo que deveria ser, como queria ser e o que deveria fazer”.

Em resposta a uma pergunta do escritor Affonso Romano de Sant’Anna sobre a influência de Hesse, Clarice disse: “Isso eu li aos 13 anos, me deu uma febre danada”.  E na crônica ‘O Primeiro Livro de Cada uma de Minhas Vidas’, Clarice indica a razão de seu encanto: “E eu, que já escrevia pequenos contos, dos treze aos catorze anos fui germinada por Hermann Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura”.

‘O lobo da estepe’ é a obra mais conhecida de Hesse, lançada no período entre guerras, em 1927, em um momento político na Europa em que o senso comum cultuava a guerra, algo a que Hesse se opõe frontalmente, atacando os valores da pequena burguesia na trajetória de lobo da estepe de Harry Haller, o protagonista da história.

O livro começa como um mergulho no mundo interior de Haller, um intelectual ligado às artes, à literatura e ao jornalismo. Depressivo e com tendência ao suicídio, Haller alimenta uma visão marginal do mundo, sempre contra a corrente predominante de pensamento, contra a hipocrisia e os falsos valores. O lobo da estepe é a figura de ‘outro’ no mundo interior de Haller, um duplo de sua personalidade, uma força que se manifesta fora do domínio da consciência.

A maneira como Hesse investiga a personalidade de Haller indica que na verdade o escritor está em busca de algum conhecimento para a alma humana, esse ‘objeto’ que é incerto e escapa dos domínios da ciência. É por essa razão, aliás, que o romance é também um texto de cunho psicanalítico, em que Hesse deixa patente a influência da obra de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Ao mergulhar no romance, o leitor percebe que a personalidade é uma multiplicidade de personagens e o lobo da estepe é apenas um deles.

O lobo da estepe,

Hermann Hesse, tradução de Ivo Barroso, editora BestBolso, 2009, 252 págs., R$ 14,90.

Foto: Divulgação

Rubem Alves e o poder mágico das palavras

Rubem Alves: inspiração para despertar novos conhecimentos no leitor

As palavras têm poder mágico. Mas isso não é mera força de expressão. É algo que acontece na realidade. As palavras que a mãe dirige ao filho, por exemplo, podem marcá-lo por toda a vida. Na religião, espera-se que elas conduzam a ação do sujeito, sem o quê não haveria razão para rezar. Os efeitos que as palavras provocam no ser humano têm a ver com ‘transformação’.

“O poder das palavras não está nelas mesmas. Está no jeito como as lemos”, afirma o escritor e psicanalista Rubem Alves, no livro ‘Palavras para desatar nós’, uma reunião de 48 crônicas publicadas em jornais, revistas e na internet, lançada este mês.

Alves é autor de mais de 50 títulos, incluindo livros infantis e sobre educação. Na nova obra, agradou a leveza com que ele trata de temas que o público toma por áridos, difíceis, como psicanálise, filosofia, obras clássicas como a ‘Odisseia’, de Homero, ou ainda os sentimentos mais escondidos, como a inveja e o medo da morte.

As crônicas de Alves representam a procura de uma conversa na qual o leitor possa descobrir algo novo sobre si mesmo – daí o sentido do título – e por isso têm um caráter de franqueza: “As pessoas que me procuraram nos anos em que exerci a psicanálise eram todas diferentes e tinham queixas diferentes. Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande queixa: queriam ter alegria”.

Ou ainda: “O que escrevo é melhor do que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor”, afirma ele para desmascarar o mito de que o escritor é parecido com sua obra.  Ele faz isso resgatando a história de um encontro marcado entre Fernando Pessoa e Cecília Meireles, ao qual Pessoa não compareceu, enviando um mensageiro com uma desculpa esfarrapada. Alves encontra a razão do desencontro no texto ‘Livro do Desassossego’, assinado pelo heterônimo Bernardo Soares, onde afirma: “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”.

Os textos soam também como breves lições que nos fazem pensar. Na pequena crônica ‘As lâmpadas e a inteligência’, ele brinca com a ideia quase banal de comparar as duas coisas. “As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam. Há inteligências de QI 200 que só iluminam esgotos e cemitérios”.

Outra ideia presente em Alves é que literatura e psicanálise são campos do conhecimento que se mantêm próximos, porque buscam um saber incerto sobre o mesmo objeto: os desejos e aflições da alma. “Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não sonhamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar”.

 

Palavras para desatar nós,

Rubem Alves, editora Papirus, Campinas (SP), 2011, 176 págs.

 

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Febre de viver com Betty Blue

Beatrice Dalle incorporou o espírito de Betty Blue na vida real

A paixão é uma experiência que está longe de ter o prestígio de uma relação de amor. É assim que nos acostumamos a pensar sobre esse assunto. Mas é o próprio amor, ou a paixão…, que faz as verdades caírem por terra. Há momentos em que não sabemos a diferença entre uma coisa e outra. O fato é que a paixão tem uma força, é uma febre que transforma o sujeito.

Foi com fúria apaixonada que li o romance ‘Betty Blue – 37,2º de manhã’, do escritor francês Philippe Djian, que recria o estilo libertário e visceral de norte-americanos como Henry Miller (1891-1980) e Jack Kerouac (1922-1969). Kerouac foi o criador na literatura da Geração Beat, precursora da contracultura nos anos 60.

37,2 graus é a temperatura do corpo da mulher grávida, um estado febril. No caso de Betty, essa febre pode levar à loucura. O romance é a trajetória de Zorg e Betty, que aos 30 e poucos anos vivem uma paixão enlouquecida, em meio a trabalhos ocasionais, roubos, brigas e bebedeiras.

A história de Djian foi para as telas do cinema em 1986 com direção de Jean-Jacques Beineix. O filme projetou o escritor para o mundo e lançou a atriz Beatrice Dalle, dona de uma beleza exótica e naquela época ícone do movimento punk na Europa. Na vida real, Beatrice parece não conseguir se livrar do estigma de Betty, vivendo às voltas com drogas e pequenos furtos.

Djian já declarou que não gostou do filme e que o considera oposto ao livro. Ele afirmou que enquanto o escrevia “em algum lugar em minha mente havia apenas um personagem, metade homem e metade mulher”. O escritor acha que o filme tornou a história ainda mais brutal porque apresenta os dois personagens sempre como distintos.

Zorg é zelador em um motel e Betty uma garçonete. Mas ambos não têm raízes com o mundo e caem na vida em busca de um significado maior do que consumir e cumprir com as eternas obrigações cidadãs. Betty descobre que Zorg tem um romance escrito em cadernos e datilografa o manuscrito para enviar cópias às editoras. Zorg, no entanto, permanece como escritor fracassado até que consegue a publicação em um momento em que isso não significa mais nada.

A paixão desenfreada entre Zorg e Betty soa como uma alegoria, figuração da fúria do desejo de ser mãe, considerando que os dois podem ser uma só pessoa. Djian tem uma fluência em seu texto que leva o leitor a também se apaixonar por Betty, uma mulher rebelde e impetuosa, que nega os valores estabelecidos para beleza e comportamento.

Betty era como um terremoto: “Eu podia reclamar um pouco de praxe, mas o veneno já tinha invadido meu cérebro, como esse mundinho ressecado e murcho era pesado ao lado dela”, diz Zorg ao perceber que a paixão pela aventura também o havia tomado.

Morte, amor e paixão – essas três palavras fundamentais do ser humano deslocam seus significados até a loucura nas páginas de ‘Betty Blue’ – pode haver um momento em que matar é um ato de amor.

Betty Blue 37,2º de manhã,

Philippe Djian, tradução de Rogério Altman, editora Scritta, 1991, SP, 269 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br

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