Legado de solidariedade

A mensagem de solidariedade que o papa Francisco levou aos moradores da favela da Varginha, na Zona Norte do Rio, praticamente traduz o “espírito” de seu pontificado, que pretende se realizar como uma nova primavera para a igreja na América Latina e, em especial, no Brasil, que ainda é o maior país católico do mundo apesar da redução do número de fiéis nos últimos anos. “Ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo”, disse o papa ao lançar um apelo para que a sociedade, principalmente aqueles que têm mais recursos e poder, trabalhe para a construção de um mundo solidário.

Dom Helder – Ação da Igreja para reduzir as desigualdades

Dom Helder – Ação da Igreja para reduzir as desigualdades

Se a Igreja de fato avançar para o futuro com Francisco, o que ainda é incerto ou cedo para saber, o que não vai faltar é exemplo de sacerdotes brasileiros que conheceram a prática da igreja que faz a opção de se aproximar dos pobres para combater as desigualdades. “Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista”, afirmou Dom Helder Camara (1909-1999), arcebispo de Olinda e Recife de 1964 a 1985.

Dom Helder foi um padre que soube transformar as palavras em verdadeiras ações para combater a desigualdade. Ele foi, por exemplo, um dos criadores da CNBB , em 1952, instituição que surgiu para exercer funções pastorais em favor da sociedade, atacando a miséria e pobreza. Com sua fala substantiva, sem circunlóquios, Dom Helder foi o bispo brasileiro que mais influenciou o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 para repensar o papel da Igreja Católica no mundo – foi desse evento que as missas deixaram de ser rezadas em latim.

O legado de Dom Helder é ainda mais importante porque ele tem um tom profético, pois ele estava preocupado com o que a religião poderia representar no futuro. “Fiel ao pensamento de Dom Helder e visando ao século 21, me atreveria a dizer que o futuro da Igreja não está na aliança com o poder político (nem com o Estado, nem com os partidos políticos), mas na encarnação da Igreja na sociedade civil”, afirma Pablo Richard, sacerdote chileno, que assina artigo sobre o religioso no livro “Helder, o Dom, uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil”, de vários autores, organizado pelo sacerdote e teólogo Zildo Rocha.

Esse livro foi editado em 1999, quando foram comemorados os 90 anos de Dom Helder, que também faleceu naquele ano. A edição reúne 25 artigos que dão uma dimensão da trajetória de um padre que sempre defendeu a solidariedade, como vem fazendo o papa Francisco.

 

Helder - o Dom - capa2Helder, o Dom, uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil,

Organizado por Zildo Rocha, editora Vozes, RJ, 1999, 208 págs.

Castaneda cria outra dimensão da realidade

Deserto de Sonora abriga as plantas estudadas por Castaneda

Encontrei um livro em um sebo, e que também está nas livrarias, que foi um best-seller entre os jovens quando lançado, em 1968. ‘A Erva do Diabo’, do escritor peruano Carlos Castaneda (1925-1998), foi praticamente uma bíblia para o movimento da contracultura, criando uma legião de seguidores que buscavam repetir as experiências com plantas alucinógenas descritas pelo autor.

Castaneda escreveu essa obra inaugural de sua carreira como dissertação de mestrado em antropologia na Universidade da Califórnia (EUA), depois de cinco anos como aprendiz de feiticeiro de um índio yaqui, do deserto de Sonora, México.

O livro trata assim do difícil percurso para cumprir os ensinamentos do bruxo, que o autor chama de Dom Juan. A obra está organizada em duas partes. A primeira é um texto literário, motivado por diálogos, revelando a relação que se estabeleceu entre mestre e aprendiz. A segunda parte, menos importante, trata das questões conceituais que estruturam o mundo de símbolos do feiticeiro.

Ao procurar Dom Juan, a ideia de Castaneda era tão somente estudar o uso de plantas alucinógenas por sociedades indígenas. Mas ao aprofundar o relacionamento com o índio, o então estudante encontrou outras formas ou dimensões para representar a realidade, o que ele chamou de “estados de realidade não comum”, referindo-se a uma forma mágica de pensar, que nos leva para fora do cotidiano.

As plantas usadas por Dom Juan são o peiote, um cacto típico daquela região; a datura, que também é chamada ‘erva do diabo’; e os cogumelos – estes recebem o apelido de ‘humito’(fuminho). Mascando, bebendo infusões ou fumando, o que está subjacente à abordagem dessas substâncias é a ideia de absorver seu poder para a mente e o corpo.

Segundo Dom Juan, há uma espécie de hierarquia entre essas plantas, de tal modo que o peiote, que ele chama de Mescalito, é um mestre, um protetor, “que mostra como se deve viver”. Já a datura e os cogumelos são aliados, podem ser domesticados e agem como auxiliares para se atingir o conhecimento.

As palavras bruxo ou feiticeiro, no texto de Castaneda, têm o sentido de alguém que atinge um conhecimento superior, que detém uma consciência ampla da realidade. Não é possível, portanto, levar essas palavras ao pé da letra. A disposição para abandonar verdades estabelecidas e mergulhar em outro mundo é o que fascina o leitor de Castaneda. O livro é uma viagem por um universo em que as leis da física e a nossa pretensão de fazer a lógica prevalecer sobre os fatos viram pó.

Na minha experiência de leitura, pensei bastante sobre a religiosidade humana, e na tendência que temos para personificar a fé na figura de Deus. Isso porque o Mescalito, para Dom Juan e para Castaneda, assume a forma humana na alucinação, e também com uma dimensão divina, transcendental.

 

A Erva do Diabo, os ensinamentos de Dom Juan,

Carlos Castaneda, tradução de Luzia Machado da Costa, editora Record, RJ, 246 págs.

 

Foto: http://aipagotto.wordpress.com/

Borges entre os enigmas da linguagem

Borges especula sobre misticismo e poesia

Participar de uma religião é um exercício no qual os fiéis estão sempre construindo significações e símbolos para o Ser Divino. Não importa qual a religião, esse exercício se repete, a tal ponto que ‘ser religioso’ não é tão simples quanto ‘ter religião’. E mesmo que o sujeito se diga ateu, nos momentos de pavor ou medo sua mente envereda pelo caminho da superstição, levando a crer que interpretar o mundo de forma mágica é um ato extremamente humano.

Ao procurar compreender o que é o Divino, o ser humano busca uma transformação que o afaste das coisas pequenas. Ao ler o conto fantástico ‘O Aleph’, de Jorge Luis Borges (1899-1986), originalmente publicado em 1947, encontramos esse mesmo movimento, na figura de algo que tem existência material e espiritual, que o escritor define como “um ponto do espaço que contém todos os pontos”.

Essa ideia de pluralidade se repete nas definições que Borges encontra para ‘O Aleph’ – ele é também um pássaro que é todos os pássaros, uma esfera “cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma”.  Literalmente, Aleph é a primeira letra do alfabeto hebraico, e se refere também ao primeiro elemento de uma série ao infinito.

No conto, Borges é assolado por súbito mal-estar, trazido pelo pensamento de que estava prestes a morrer, antes de ter a evidência do universo inconcebível. Ele admite que essa experiência é semelhante ao transe dos rituais místicos, em que se procura construir sentidos para a divindade a partir da visão da morte – esse é, por exemplo, o ritual seguido pelos grupos de bebedores de ayahuasca, chá feito com plantas amazônicas e usado desde os incas. Os símbolos para a divindade seguem a ideia de que cada homem tem um ponto de vista do mundo, mas só Deus abarca todos os pontos de vista.

Borges era apreciador da Cabala, lia tudo a respeito desse conhecimento fundamental do judaísmo. No conto, ele não está propriamente interessado na religião, mas no fenômeno de linguagem. Em 1966, em entrevista à revista ‘The Paris Review’, ele falou porque se interessou pela Cabala: “Penso que foi por intermédio de De Quincey [Thomas De Quincey – 1785-1859], através de sua ideia de que todo o universo era um conjunto de símbolos, ou de que qualquer coisa significava alguma outra coisa”.

‘O Aleph’ traz também referências à Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), que indica o interesse de Borges pelos fenômenos da linguagem.  Dante é representado pelo personagem Carlos Argentino Daneri, um poeta a princípio louco e enfadonho, para o qual Borges não vê futuro. Mas, no conto, é Daneri quem o conduz à experiência mística.

O livro ‘O Aleph’ traz outros contos do autor, a maior parte deles identificados com o gênero das histórias fantásticas. Um deles é também referência famosa de Borges. ‘A Casa de Astérion’ reconta o mito grego do minotauro, homem com cabeça de touro, que habitava o centro de um labirinto e matava quem ali entrasse.

O Aleph,

Jorge Luis Borges, tradução de Davi Arrigucci Junior, Companhia das Letras, SP, 2008, 160 págs.

Foto: Divulgação

Ouça arquivo MP3 com o conto ‘Os dois reis e os dois labirintos’.