Fogo e magia da paixão numa viagem de trem

Nós, leitores, costumamos achar que o conto é um gênero menor que o romance, que as grandes histórias, sim, é que consagram o escritor e lhe dão projeção. Mas isso é um mito, ou mesmo um tabu. Contos podem ter narrativas mais concisas, menos personagens, mas não são menores em termos de expressão literária e artística.

Faraco é mestre na arte do conto

Há contos que são obras-primas, e podem consumir tanto ou mais energia do escritor do que o romance, para depois proporcionar ao leitor emoções, pensamentos e imagens que ficam registrados como se ele próprio tivesse vivido a experiência narrada.

Foi o que aconteceu comigo depois de ler o conto ‘Dançar tango em Porto Alegre’, do escritor gaúcho Sergio Faraco, publicado em uma coletânea de noves histórias sob o título ‘A dama do Bar Nevada’ – uma edição mais recente, de 2011, traz também quatro contos inéditos nessa obra que foi originalmente lançada em 1987.

O conto pungente narra um encontro amoroso durante uma viagem de trem de Uruguaiana a Porto Alegre. Em meio à madrugada fria e úmida, um homem solitário de meia idade, mal vestido e sem foco profissional na vida encontra sentada ao seu lado uma jovem bonita, mas com o olhar perdido e melancólico.

Sem expectativas no primeiro contato, eles trocam algumas palavras, mas logo se entocam em uma cabine do trem, onde a garota diz ter o marido à beira da morte. “Quero esquecer meu marido, a doença, meu filho, o dinheiro, tudo… quero uma noite diferente…”, declara Jane ao seu amante ocasional.

A transa começa com estranhamento, mas aos poucos toma fôlego e cada um renasce de suas misérias, enlouquecendo na paixão. “Nem pensar em me comover com seu desespero, ela estava me pondo maluco com aquele propósito de dar-se em nome de um sofrimento”, confessa o amante para depois avaliar o efeito do encontro:  “…eram outros os olhos com que eu olhava ao meu redor…”.

A paixão muda o modo como enxergamos a realidade, e essa magia é algo que o conto proporciona com o texto genial de Faraco. A narrativa em primeira pessoa transporta o leitor para o lugar do amante; é o modo como a história é contada que faz o leitor entrar na viagem de trem.

Faraco é um contista consagrado e as outras histórias do livro são igualmente pérolas da literatura, como ‘Dia dos mortos’, que traz a desventura de dois gaúchos no Rio de Janeiro, ao fim da fatídica partida no Maracanã, em julho de 1950, quando o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo para o Uruguai. Ou ainda o conto que dá título ao livro, em que uma mulher em fase de decadência encontra somente no amor barato o caminho para mudar o significado de sua existência.

A dama do Bar Nevada,

Sergio Faraco, editora L&PM, Porto Alegre (RS), 1987, 107 págs.

Foto: Divulgação

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