Uma selfie com o Velho Marinheiro

Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos a câmara digital nova que acabara de comprar, das mais modernas. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:

— Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo…

— Fazer o quê?

— Uma sel-fi-e.

— Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.

— Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?

— Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.

Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:

— Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.

— Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!

— Todo mundo faz – tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.

— Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.

E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Tomara que (não) caia

Orla. Sol forte. Brisa oportuna. Delícia.

O Velho Marinheiro de regata azul. Mafalda vestidinha como convém a uma senhora recatada, mulher de um Lobo do Mar. Coisa para poucas.

Quase paz.

Lá vinha ela toda faceira, com seus quase 7.0, 120 Kg, varizes a dar com pau, mil e duas tatuagens coloridas (por recentes), cabelos vermelhos, biquíni branco cobrindo as partes baixas (as de cima, em queda mais que livre, contavam com a proteção de um tomara-que-caia, nada mais).

Virou atenção do calçadão, com o perdão da rima involuntária e vagabunda. Impossível passar batida, mas não passava batida pelos piores motivos. Homens lhe dirigiam olhares sem gula. Mulheres meneavam as cabeças, em sinal de reprovação. Um travesti, saído ninguém sabe de onde, bradava: “É isso aí, vovó. É preciso escandalizar os moralistas!”

— Pela primeira vez na vida, Mafalda, minha velha, amor de uma vida inteira, peço aos céus para que um tomara-que-caia não caia. Ninguém merece. Nem mesmo esse velho Lobo do Mar, pecador por pensamentos e ações, mas sempre por boa causa: T.

E o Velho Marinheiro mais não disse. Entornou o aperitivo e o chope. Pediu mais uma rodada e um cascão com três bolas para Mafalda. Agradecido aos santos, que os pouparam de quadro dantesco: o tomara-que-caia não caiu. Ao menos na frente deles.

Mas Mafalda não deixou por menos:

— Você é um canalha. Vá catar seu bicho de pé, esclerosado.

O Velho Marinheiro deu de ombros. Pediu uma porção de porquinho. E mais um cascão, agora de uma bola só, para Mafalda, amor de uma vida inteira etc.

Ganhou um selinho.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Espertos & Espertos

— Ananias, eu vou lhe dizer uma coisa: durante muito tempo, rejeitei aquela falação dos políticos, segundo a qual o Congresso é a cara do povo, espelho da sociedade.  Sempre achei que aquilo era uma forma que encontraram para justificar suas lambanças. Hoje, tenho minhas dúvidas. Não sei se eles estão de todo errados. O povo também não é lá essas coisas, não, Ananias.

— Mas eles roubam demais, Velho Marinheiro, só pensam em fazer negócios, em seus próprios interesses. E o povo que se dane.

— Eu sei, não precisa me dizer o óbvio, Ananias. Acompanho o noticiário. Mas também vejo o que se passa nas ruas. O dono do posto vende combustível adulterado. O sujeito, se puder, fica com o troco que não lhe pertence, surrupia o isqueiro do colega, afana o alicate do vizinho, adultera os relógios da água e da luz…

— Perto do que eles fazem isso é pinto!

— Pinto uma ova! Caráter é uma coisa que você tem ou não, Ananias. Quando eu digo o “povo”, eu estou querendo dizer que a maioria das pessoas, independentemente da classe econômica a que pertencem, quer, sim, levar vantagem em tudo. Neste país, todo mundo se acha esperto. Se puder engabelar o compadre, engabela. O problema é que uns poucos sempre serão muito mais espertos que a imensa maioria.

— O senhor está justificando as bandalheiras dos políticos?

— Não se faça de besta, Ananias. Pouco me importa se o cara é de esquerda, direita ou centro; se o liga é católico, evangélico ou espírita; se rouba para si ou para o partido; se é milionário, remediado ou pobre… Lugar de ladrão é na cadeia. O que não suporto é essa mania de idolatrar o povo, de querer transformá-lo num bando de beatos. Fie-se nisso, pra ver…

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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O voto do Velho Marinheiro

Impressionado com os números recentes do IBOPE – 56% não têm nenhum (ou quase nenhum) interesse pelas eleições presidenciais –, nosso repórter em fim de carreira, o ingênuo Ananias, perguntou ao Velho Marinheiro:

— Afinal, mestre: de que lado o senhor está? Vai votar em quem?

— Em sua mãe… Que Deus a tenha, senhora digna.

— Falando sério, mestre. Vai de direita, esquerda ou centro?

— Ananias: pouco me importa se o político é de direita, de centro ou de esquerda. E sabe por quê? É raro encontrar político que lhe diga a verdade. Se eles mentem tanto, por que perder o pouco tempo que me resta com conversa fiada? Só dá pra discutir ideias quando a alma é digna do nome. Mas, na hora H, sempre acabo votando naquele que me parece o menos indecente. Quase sempre perco o voto, meu candidato não se elege. Quando acerto, me arrependo de ter ajudado a colocar o sujeito lá.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Coisa de velho

Raridade encontrar o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, caçador implacável do bicho de pé inexistente, assim: caído.

Naquele dia, ele estava:

— Estou velho, Mafalda. Sinto dores: aqui, acolá e alhures. Com os demônios. Dores me incomodam, mas não me matam. O que mata esse seu amor de décadas, de uma vida inteira, é…

— É o que, homem de Deus?

— Essa comoção besta que, por isso ou por aquilo, me faz verter lágrimas. À toa.

— Isso há de passar, meu velho.

— Que passa, sei. Por via das dúvidas, vou tomar uma lapada. E meter pau no governo.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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O homem Barsa

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu uma passada no bar do Carneiro. Queria saber como andava o amigo, sempre às voltas com suas catorze doenças e com o vício da mulher, que gastava o dinheiro miúdo da família numa máquina caça-níqueis escondida no fundo da espelunca. Ficou perplexo com o que viu e ouviu.

Romualdo Bastos – o cruzadista –, alçado à categoria de intelectual da Vila Invernada, por conta de seus sólidos conhecimentos sobre os mais variados e inusitados temas, improvisava uma palestra sobre seu “método de trabalho”. O que mais impressionava nosso Lobo do Mar, no entanto, era a atenção que lhe dedicavam os presentes, uma gente avessa à leitura. Tacos de bilhar repousavam sobre o pano verde, ninguém ousava interromper o homem. O silêncio só era quebrado pela tosse renitente de Toninho Moleza. Os malditos cigarros lhe arruinaram os pulmões.

— Meu método é simples: não acumulo dúvidas e me deixo – tal qual um pai de santo – ser tomado pela curiosidade. Se o desafio é responder qual o continente mais populoso do mundo – e a resposta eu já sei, claro! –, vou além: quero saber quais são os países que dele fazem parte, qual a população de cada um deles, quem os preside etc. Não paro por aí: vou pesquisar também como são formados os outros continentes. Anoto, decoro, passo semanas fazendo isso. Agora mesmo, estou memorizando os nomes de todos os países que compõem a ONU, os nomes de seus respectivos presidentes e capitais, a área geográfica e a população de cada um deles – gabava-se Romualdo Bastos.

Toninho Moleza acendeu mais um cigarro, tossiu a valer e disparou:

— Doutor Romualdo: o senhor ainda vai entrar naquela academia e virar imortal! Para orgulho de Vila Invernada!

Palmas se confundiam com gritos de “bravo”. Alguém ameaçou puxar o refrão “Romualdo é coisa nossa”. O cruzadista sorvia aos golinhos o aperitivo, afetando falsa modéstia. Até que o Velho Marinheiro interveio:

— Qual é a mesmo sua graça?

— Romualdo. Romualdo Bastos. A seu dispor.

— Eu também sou curioso, seu Romualdo: que serventia pode ter uma cultura inútil dessas?

 

orlando3Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.br

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Não sou o melhor, mas…

Não há quem não conheça Josué Lemos na Vila Invernada, bairro pobre da zona Leste de São Paulo, local em que nasceu, criou-se e entrou na pior idade. A vida dura o obrigou a se virar nos trinta, seja lá o que isso queira dizer. Ele é uma espécie de “faz tudo”, pau pra toda obra. Ergue e pinta paredes, enche laje, desentope canos, troca fiação, remenda calçadas e muros, cata lata, vende papelão, faz carreto na feira.

Para Josué, não há tempo ruim. Gaba-se de estar a serviço da “comunidade” 24 horas por dia, de segunda a segunda, incluindo feriados. Só não trabalha na sexta-feira da Paixão. E o que é melhor – para os clientes, claro: é barateiro. Sobe no telhado por qualquer bagatela, apara grama de quintal e trepadeira de muros por duas pingas e uma cerveja. Nunca reclama do que lhe pagam: “Eu preciso de pouco pra viver”.

Josué só não gosta muito de fazer serviços na casa do Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar:

— Ele é exigente demais, põe reparo em tudo, difícil agradar aquele homem. Quando começa a caçar o bicho do pé, então, me deixa nervoso, sei que a bronca é certa. Só vou lá por causa de dona Mafalda, um doce de criatura.

Sejamos justos: que o Velho Marinheiro tem gênio ruim, todo mundo sabe; mas não é o único a reclamar de Josué. Ao contrário. É raro encontrar alguém que elogie os serviços que presta. Por que o contratam, afinal? Porque é boa praça, está sempre disponível, não bebe durante o expediente, é barateiro e de confiança, ao contrário da maioria de seus concorrentes, cujos serviços, em termos de qualidade, igualam-se aos seus.

Josué sabe disso. Quando alguém reclama, dispara seu bordão predileto: “Eu sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Mas sou o que temos”.

 

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Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.br

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