Segundo estado onírico

Dos lançamentos de livros que observei nos últimos dias, um que me chamou a atenção foi “A Autoestrada do Sul e outras histórias”, do argentino Julio Cortázar (1914-1984), considerado mestre na arte do conto. A narrativa que dá título à edição permanece na minha memória como um dos contos que mais me impressionaram entre os que li do autor exilado na França a partir de 1951, por conta da ditadura em seu país.

Em “Autoestrada do Sul”, o leitor experimenta a suspensão do tempo e do espaço na situação apresentada por Cortázar: um monstruoso congestionamento entre Fontainebleau e Paris, que começa em um domingo e toma toda a semana. Para enfrentar o espaço de exceção em que se torna o congestionamento, as pessoas são obrigadas a estabelecer novas relações, fora das convenções que até então regiam suas trajetórias. A engenhosidade do texto e a literatura como um jogo que experimenta limites do cotidiano transformam esse conto em uma verdadeira experiência de leitura.

Cortázar buscava nos sonhos a fonte para alimentar seus contos

Cortázar buscava nos sonhos a fonte para alimentar seus contos

A obra de Cortázar é ligada ao realismo fantástico – vertente literária que é característica da produção na América Latina no século 20 e que também tem expressões como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez e Juan Rulfo, entre outros. No caso de Cortázar, o fantástico se apresenta pela perspectiva da subjetividade do sujeito manifesta nos sonhos, que sempre parecem ter alimentado seus textos. O próprio escritor dizia que sua obra representa um “segundo estado onírico”.

Nessa linha, a primeira história que o lançou ao público como contista foi “Casa tomada”, publicada na coletânea “Bestiário”, de 1951. Na história, um casal de irmãos, perto dos 40 anos e depois de terem renunciado a seus relacionamentos amorosos, vivem reclusos em uma grande casa até que um dia começam a imaginar o espaço sendo ocupado por estranhos. Esse sentimento vai crescendo como angústia até que eles se vêem obrigados a abandonar a casa –como se o absurdo se tornasse real.

Em entrevista à revista Paris Review, em 1984, Cortázar falou sobre a dificuldade de estabelecer as fronteiras entre o real e o imaginário nos dias de hoje. “Atualmente, minha noção de fantástico está mais próxima do que chamamos de realidade. Talvez porque a realidade se aproxime do fantástico cada vez mais”, disse, em referência às transformações culturais que alteram a noção das coisas através do tempo. A atitude de levar as situações ao limite faz parte do desejo do ser humano, principalmente quando ele se vê diante de fatos inusitados e fica sem entender o que se passa ao redor.

 

Julio Cortázaer - A autoestrada do sul - capa2A Autoestrada do Sul e outras histórias,

Julio Cortázar, tradução de Heloisa Jahn, editora L&PM, RS, 240 págs.

Fotos: Divulgação

Ler Cortázar e pensar no sentido da vida

Cortázar é considerado referência do realismo fantástico

Em uma família com diferentes obsessões, uma tia tem medo de cair de costas e, por isso, sempre que se desloca para qualquer lugar mobiliza todos à sua volta, que cuidam para remover obstáculos ou rastros que representem riscos. Movendo-se como um boxeador, com as pernas arqueadas e as costas para frente, a senhora blasfema contra tudo o que possa exaltar seu medo.

Em outra pequena história, a família monta um patíbulo [palanque com estrutura vertical de madeira para enforcar condenados] no jardim na frente de casa, atraindo a atenção dos transeuntes, que se manifestam entre protestos e ameaças. A construção de madeira, no entanto, vira palco de um jantar sob luar, esvaziando os olhares dos curiosos.

As narrativas estranhas estão na base de ‘Histórias de cronópios e de famas’, do escritor belga de pais argentinos Julio Cortázar (1914-1984). O livro foi escrito em Roma e Paris nos anos 50 e publicado em 1962, um ano antes de ‘O jogo de amarelinha’, seu mais famoso romance.

A obra é organizada em quatro partes: manual de instruções, estranhas ocupações, matéria plástica e histórias de cronópios e de famas. Nesta última, Cortázar monta um retrato da sociedade argentina por meio de três classes que ele chama de ‘cronópios’, ‘famas’ e ‘esperanças’. Os cronópios são ligados ao lirismo, à poesia, ao esquecimento, à ingenuidade. Já os famas são compenetrados e racionais; e “as esperanças são bobas”, afirma Cortázar.

O professor de teoria literária Davi Arrigucci Júnior escreveu em um estudo sobre Cortázar, chamado ‘Encontro com um narrador’, que esse estranhamento nas histórias “está na raiz de uma busca poética”. Desse modo, estranhar é tomar algo como desconhecido: abandonar aquilo que é sabido para reconstruir o conhecimento.

Dois exemplos: Cortázar dá instruções para subir uma escada ou dar corda em um relógio como se nunca tivesse visto esses objetos. O jogo de destruir e reconstruir o sentido surge assim como um caminho para despertar a consciência das coisas para as quais estamos cegos, como a disponibilidade para o outro.

O livro desperta sentimentos; seus textos aproximam humor, escárnio, poesia, melancolia e imagens fantásticas. Cortázar é considerado mestre do ‘realismo fantástico’, gênero contaminado pelo surrealismo e que emergiu após a Segunda Guerra Mundial, vislumbrando a falta de fronteiras entre o mundo interior e exterior. As expressões doentias e obsessivas que surgem nas expressões do fantástico permitem a transcendência para o outro lado da vida, aquele que só fica em nossos pensamentos nunca revelados, porque são mágicos e estão fora do padrão de comportamento social.

 

Histórias de cronópios e de famas,

Julio Cortázar, tradução de Glória Rodríguez, editora Civilização Brasileira, RJ, 128 págs.

Foto: Divulgação

Enigmas do amor e da morte nos contos de Julio Cortázar

O escritor era mestre na arte do conto

Qual a relação entre ‘amor’ e ‘morte’? Quando a conversa é sobre um desses termos, ou ambos, parece que falta alguma coisa para preencher o sentido das palavras. No amor, são tantas as possibilidades de significações que nos momentos de crise o sujeito se vê diante do abismo do nada. Na morte, o sentido nunca poderá ser apreendido, a não ser pela certeza de que chegaremos ao seu destino.

Essa conversa enigmática é o combustível de ‘Todos os fogos o fogo’, do mestre argentino Julio Cortázar (1914-1984), que agora chega a uma nova edição de bolso e fica mais acessível ao leitor. O livro reúne oito contos, cada um deles uma pequena obra de arte. O lançamento original é de 1966. Cortázar é um dos grandes nomes da literatura moderna, autor de ‘O jogo de amarelinha’ e ‘Histórias de cronópios e de famas’.

O conto que dá título ao livro faz uma fusão de duas histórias sobre paixões amorosas, uma no tempo presente e outra no período do império romano. Em ambas, estão em questão triângulos amorosos, sem que o escritor estabeleça limites entre a realidade e o imaginário dos sentimentos envolvidos. Cortázar evoca o passado dos gladiadores, leva o leitor para uma arena de combate, onde as personagens enfrentam os desígnios do amor e a da morte, como na história do presente.

Para ler esse livro é preciso estar longe de querer dominar o sentido das coisas e explicar tudo. Os contos começam naturalmente enigmáticos, causam estranhamento e aos poucos vão se abrindo à compreensão do leitor.

Na história inicial ‘A autoestrada do sul’ o leitor se vê em meio a um monstruoso congestionamento nos arredores de Paris, que começa em um domingo à tarde e se arrasta por toda a semana. É como se Cortázar pegasse um detalhe da vida cotidiana e o amplificasse ao extremo para ver o que acontece. No caso do congestionamento, as pessoas interagem solidariamente, o engenheiro protagonista se apaixonada pela moça de um ‘Dauphine’ até que aquela situação limite se mostra palco de um gozo perdido, como tantos que marcam a nossa memória.

A forma do texto é essencial em Cortázar, e também por meio dela o leitor é levado a um estranhamento inicial. No conto ‘ Senhorita Cora’, que trata de uma paixão entre um jovem doente e sua enfermeira, o papel do narrador desliza entre as personagens, ora é a mãe quem conta a história, ora é o garoto, ora a enfermeira. Cortázar mostra os mesmos fatos na perspectiva de diferentes personagens e assim implode a linearidade da história, que volta no tempo quando um personagem reconta algo já contado.

Vale também destacar os contos ‘A saúde dos doentes’ e ‘Reunião’. No primeiro, o escritor explora a dificuldade que a cultura ocidental tem em lidar com o tema da morte, e desenvolve uma comédia trágica em que a mãe doente é poupada de toda a má notícia. No outro, o escritor retrata a chegada dos revolucionários a Cuba, colocando Ernesto Guevara, o Che, como narrador.

Todos os fogos o fogo,

Julio Cortázar, tradução de Gloria Rodrigues, Edições BestBolso, RJ, 2011, 160 págs., R$ 12,90.

Foto: Divulgação

Ouça trecho do conto ‘Reunião’, em que o narrador é Ernesto Che Guevara recriado por Cortázar.