´Vidas Secas´ é o título mais vendido nos sebos online

Helder Lima

Graciliano Ramos

Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1892-1953), é o título mais vendido no
portal Estante Virtual, que atualmente reúne 23 milhões de livros de 1,6 mil sebos online. O romance teve sua primeira edição lançada em 1938 e é considerado a obra mais importante do autor. Em 1963, a história foi para as telas do cinema, com o filme homônimo dirigido por Nelson Pereira dos Santos, um dos pioneiros do movimento do Cinema Novo no país, que propunha o filme autoral em detrimento das grandes produções.

O livro conta a história de uma família que enfrenta uma caminhada inóspita e sem fim em meio ao sertão nordestino. Nessa situação de penúria extrema, em que até o papagaio da família é sacrificado para saciar a fome, Ramos investiga o espírito humano, suas contradições e lances de crueldade. O romance foi escrito em meio a profundas transformações políticas e econômicas e representa o amadurecimento do movimento Modernista, que explorava a questão das nossas identidades culturais.

Nessa época, o Brasil era marcado pela ditadura de Getúlio Vargas e suas contradições: o povo vivia sem liberdades políticas, enquanto o governo criava as bases para o desenvolvimento nacional, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de 1937. Simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o escritor foi preso em 1936, quando então passou a escrever Memórias do Cárcere, que denuncia a realidade política do país naquele momento.

No topo dos 500 mais vendidos estão também, em segundo lugar, A Revolução dos Bichos, de George Orwell (1903-1950), e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez (1928), em terceiro lugar. Trata-se também de duas obras clássicas.

O livro de Orwell traz uma fábula política com a história dos animais de um galinheiro, oprimidos por seu proprietário. Os bichos unem forças e desencadeiam uma revolução vitoriosa, que os coloca no poder. Mas a felicidade dura pouco. O grupo é liderado por dois porcos que logo se veem às voltas com divergências até que um deles assume o poder e depois reinstala o totalitarismo. O livro brinca com a ideia de revolução que, definida literalmente, representa uma volta para o mesmo lugar.

Já a obra de Márquez, publicada em 1967 e considerada uma das mais importantes da literatura hispânica, conta a saga das várias gerações de uma família em uma aldeia fictícia da América Latina chamada Macondo. Definida como uma obra de realismo fantástico, a história explora situações e expressões de rudeza, colocando o gênero humano frente a frente com sua violência e irracionalidade. Para ler esse livro, vale copiar da internet uma das tantas árvores genealógicas, já que há um momento em que o leitor começa a se perder entre tantos personagens e gerações.

Sotaque caricatural

Na palestra que realizou no Salão do Livro de Guarulhos, no domingo, 9 de maio, o escritor Ariano Suassuna aproveitou para criticar o sotaque nordestino reproduzido nas novelas da TV. “Aquele sotaque não é de lugar nenhum no Nordeste, é de aeroporto; estão acabando com a língua”. Por falar nisso, a comunidade italiana também vai ter mais uma oportunidade de ficar de cabelos em pé com a novela Passione, da Globo, que estreia segunda-feira com o ator Tony Ramos e seu italiano macarrônico.

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br

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Suassuna diz que Calypso não representa a cultura brasileira

Helder Lima

O escritor Ariano Suassuna, que no último domingo reuniu 600 pessoas no Café Literário do Salão do Livro de Guarulhos, criticou as produções culturais pasteurizadas pela mídia e citou a banda Calypso como exemplo de produção cultural ruim no país. “Não posso tolerar o gosto médio e importado, a banda Calypso não representa a cultura brasileira”, afirmou.

O dramaturgo e romancista, autor da peça ‘O Auto da Compadecida’ e do livro ‘O Romance da Pedra do Reino’, falou por mais de uma hora, sempre bem humorado e arrancando risos da plateia. Já no início, Suassuna disse sobre o seu amor pela literatura. “Leitura é fundamental, não faço distinção entre a leitura e a vida”.

Suassuna foi idealizador do movimento Armorial, que surgiu em Recife (PE) em 1970, fazendo composições entre o erudito e popular para resgatar o espírito das manifestações relacionadas às raízes culturais do país.

O escritor falou da subjetividade na composição literária e deu como exemplo a obra de Graciliano Ramos (1892-1953). Contou que antigamente recebia pessoas em sua casa, perguntando ‘por que não escrevia um livro com Graciliano Ramos?` Suassuna explicou ao público que não havia como abrir mão de sua subjetividade. “O escritor vê o que entra em consonância com o universo dele”.

Ele disse também que Graciliano era “um sujeito amigo, mas introvertido, escreveu um livro chamado ‘Angústia’; não é à toa que ele via o mundo todo cinzento”. Depois completou: “O Graciliano via no sertanejo aquilo que estava no universo dele. Meus personagens são diferentes, não são amargos”.

Sobre sua atuação política – Suassuna foi secretário da cultura por duas vezes –, ele disse, com ironia, que não gosta de “ter cara de secretário”. Contou que quando menino, na Paraíba, “tinha um jumentinho e o nome dele era ‘secretário’”. Depois lembrou do tempo em que foi secretário de Miguel Arraes, governador do Pernambuco. “Eu fiz uma alavanca para discutir a cultura brasileira”. O escritor também frisou que não tem nada contra a cultura de outros países, e que deve muito a escritores como Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha, a obra inaugural do romance moderno, Dostoiéviski e Moliére.

Escritor resgata o ópio do massacre cultural do capitalismo

Helder Lima

O desenvolvimento da indústria e do capitalismo nos EUA e Europa, desde suas origens, impôs às sociedades ao redor do planeta um modelo de vida centrado no consumo de bens materiais, o que os norte-americanos chamam de ‘american way of life’. Esse sistema funciona como um rolo compressor sobre valores e tradições. A mercadoria e a necessidade do lucro tornam-se, elas mesmas, o valor maior que passa a referenciar o desejo e a conduta humana.

É contra esse estado de coisas que o jornalista, novelista, compositor e escritor Nick Tosches escreve A Última Casa de Ópio, lançado em 2002 nos EUA e em 2006 no Brasil pela Editora Conrad. O livro traz uma reportagem que inicialmente seria publicada na revista americana Vanity Fair, que trata de cultura, política e moda, e da qual Tosches era colaborador.

Nick Tosches

Tosches viaja aos países asiáticos para resgatar a história do que era uma tradição em seu país e na Europa do início do século 19, as casas para se fumar ópio. A droga é obtida com a seiva de uma planta chamada papoula, cultivada no oriente, e se espalhou pelo mundo por conta de suas propriedades medicinais.

A narrativa jornalística densa em informações é permeada por motivações pessoais. O escritor sofre de diabetes. “Minha incapacidade de manter sob controle essa doença mediante dieta, exercícios, medicamentos e evitando o estresse intriga os médicos, incluindo os melhores endocrinologistas. Só recentemente fui informado de que, entre seus muitos usos medicinais ancestrais comprovados – como cura para disenteria, asma, reumatismo etc. – o ópio foi considerado eficaz no tratamento de diabetes”.

Nos EUA, as casas de ópio foram disseminadas pelos chineses, que procuraram o país para trabalhar na construção de ferrovias e em mineração. Mas a papoula é conhecida há mais de cinco mil anos e desde a antiguidade é cultuada como uma panaceia, passando pelas civilizações do Egito, Mesopotâmia e Grécia. Mekone, cidade da Grécia Antiga, significa cidade das papoulas. O rio Mekong, que corta o sudeste asiático passando por Tibete, Mianmar, Camboja e Vietnã, entre outros países, também faz referência à planta.

Como uma tradição fora dos interesses da revolução cultural burguesa, as casas de ópio começam a sucumbir já no fim do século 19, perseguidas pela polícia e proibidas pelos governos. Segundo Tosches, muito do que se divulgava era fantasia, mas acreditava-se que as casas eram frequentadas por gângsters e pessoas do submundo. A última casa de ópio nos EUA foi fechada em Nova Iorque, em 1957.

Ao longo do texto, Tosches faz vários contrapontos entre a investigação da tradição do ópio e os símbolos dos valores da sociedade contemporânea, denunciando as mudanças provocadas pelo capitalismo. Em Bangcoc, capital da Tailândia, ele observa prostitutas se exibirem em um bar, ostentando garrafas de Coca na genitália. É como se ele encontrasse de tudo, menos casas de ópio. Na própria Tailândia, o escritor se vê cercado por restaurantes da rede norte-americana KFC e seus sanduíches de frango.

O massacre da cultura do ópio pelo capitalismo se dá duplamente. Enquanto as casas de ópio são fulminadas, a sede de lucros e o tráfico internacional transformam a papoula em heroína e morfina, dois derivados químicos perigosos e com alto poder aliciador, apesar de suas aplicações medicinais.

Cachimbo da paz
O ópio para fumar é processado em uma pasta conhecida como chandoo na Índia e no sudeste asiático. O cachimbo em geral é de bambu, mas há construções artesanais, que são os cachimbos imperiais, com marfim entalhado, ouro, jade e um couro especial chamado chagrém. Para extrair os vapores da pasta, é preciso também usar uma lamparina, uma haste e um raspador. Segundo Tosches, o ambiente é igualmente importante. O ritual deve ser feito em salas com esteiras e as pessoas deitadas de lado. Essa posição, aliás, é o traço que deu origem ao termo hip (que significa quadril em inglês), surgindo em 1904 para atravessar o século 20 com os hippies do jazz e depois do rock nos anos 60 e 70.

A Última Casa de Ópio,
Nick Tosches, Conrad Editora, SP, 2006, 93 págs.,
Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br);
Conrad: (www.lojaconrad.com.br).

Salão do livro de Guarulhos terá Ariano Suassuna

Da Prefeitura de Guarulhos – Secretaria de Comunicação

A Prefeitura realiza entre os dias 7 e 16 de maio, das 10h às 22h, no Parque da Transguarulhense (Continental), o Salão do Livro de Guarulhos. Todas as atividades do Salão são gratuitas. O escritor Ariano Suassuna estará no Café Literário no domingo, dia 9, às 19h30.

A abertura oficial na sexta-feira (7), às 19h30, contará com a presença do prefeito Sebastião Almeida e dos secretários Moacir de Souza (Educação) e Hélio Arantes (Cultura).

A Orquestra Jovem de Guarulhos, sob a regência do maestro Emiliano Patarra faz o show de abertura. A programação do primeiro dia, porém, começa bem mais cedo, às 10h30, com apresentação da Orquestra Pimentinhas, sob regência do maestro Vanderlei Banci. As 15h a diversão fica por conta do espetáculo Chang Cia de Circo.

A programação da tarde continua com um bate papo no Espaço Cultural, às 16 horas, com Max B.O. sobre o Movimento Hip-Hop. Na sequência, às 18 horas, Afonso Romano de Sant’anna participa do Café Literário, com apresentação de Frederico Barbosa.

O Salão do Livro, iniciativa da Prefeitura de Guarulhos, via secretarias de Educação e Cultura é realizado em parceria com a Associação Nacional de Livrarias – ANL.

Os exemplares serão expostos num espaço climatizado de 5 mil m². São cerca de 80 mil livros dos principais autores brasileiros, entre eles: Ariano Suassuana, Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Heitor Cony e Pasquale Cipro Neto. Mais de 200 mil pessoas devem passar pelo salão durante os dez dias do evento.

Mais informações: http://www.guarulhos.sp.gov.br/salaodolivro/

USP realiza encontro sobre João Antônio Ferreira Filho

Do Jornal da USP (26/4 a 2/5, pág.13)

Será realizado na Casa de Cultura Japonesa, em 11 e 12 de maio, o 4º encontro sobre o escritor João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), paulistano famoso pela representação do submundo brasileiro.

O evento será realizado pelo Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa (Celp), da USP, curso de pós-graduação em Letras e Acervo João Antônio (Unesp/Assis). A organização é das professoras Tânia Celestino de Macêdo e Vilma Lia Martin, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

João Antônio é principalmente conhecido por sua obra de estreia, Malagueta, Perus e Bacanaço (1963). O escritor dedicou-se ao conto, mas também deixou uma produção representativa de ensaios e crônicas. Os críticos destacam em sua escrita a harmonia vívida entre a gíria e a sintaxe apurada.

Ele atuou também como jornalista na revista Realidade e em jornais como Pasquim, Movimento e Opinião, e também em veículos da grande imprensa como Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa.

Sua literatura depreende entre as ruas “o pingente social”- termo frequentemente destacado pelo escritor em entrevistas – trazendo para o universo da literatura aquilo que a classe média e a elite costumam não perceber ou simplesmente ignoram, vidas paralelas imiscuídas na miséria diuturna de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

São também obras o autor: Mariazinha Tiro a Esmo (1975); Leão-de-Chácara (1975); e Abraçado ao Meu Rancor (1986).

Mais informações: encontrojoaoantonio@yahoo.com.br.

Deleuze pensa o conceito de ‘território’ como realização da arte

Deleuze e Guattari

Em 88 e 89, o filósofo francês Gilles Deleuze deu uma série de entrevistas à jornalista Claire Parnet, que foi compilada em mais de sete horas. Inicialmente, o acordo para esse trabalho era de que ele fosse apresentado somente após a morte do filósofo. Mas meses antes de falecer Deleuze acabou por assentir na divulgação das entrevistas, o que foi feito de novembro de 1994 a maio de 1995, no canal franco-alemão chamado TV Arte.

Para conduzir a entrevista, a jornalista elaborou um abecedário para que o filósofo desenvolvesse cada um dos 26 temas. Na letra ‘A’, Deleuze reflete sobre os animais e dentro desse tema trata do conceito de território, que ele e Félix Guattari desenvolveram no livro ‘O que é a Filosofia?’, de 1992.

Veja o que ele diz sobre território e arte:

Claire Parnet: Daí sua relação animal-escrita. O escritor, para você, é, também, alguém que tem um mundo?

Gille Deleuze: Não sei, porque há outros aspectos, não basta ter um mundo para ser um animal. O que me fascina completamente são as questões de território e acho que Félix e eu criamos um conceito que se pode dizer que é filosófico, com a ideia de território. Os animais de território, há animais sem território, mas os animais de território são prodigiosos, porque constituir um território, para mim, é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo sabe, todo mundo invoca sempre… As histórias de glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras de seu território. O que intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos, que eles manifestam na fronteira do território… Cor, canto, postura, são as três determinações da arte, quero dizer, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. E, então, eu me digo, quando eles saem de seu território ou quando voltam para ele, seu comportamento… O território é o domínio do ter. É curioso que seja no ter, isto é, minhas propriedades, minhas propriedades à maneira de Beckett ou de Michaux. O território são as propriedades do animal, e sair do território é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora dele.

Trecho da entrevista no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=_v1CkAdgdSw&feature=related

Conceitos do abecedário na entrevista:

A de Animal
B de Beber
C de Cultura
D de Desejo
E de Enfance [Infância]
F de Fidelidade
G de Gauche [Esquerda]
H de História da Filosofia
I de Idéia
J de Joie [Alegria]
K de Kant
L de Literatura
M de Maladie [Doença]
N de Neurologia
O de Ópera
P de Professor
Q de Questão
R de Resistência
S de Style [Estilo]
T de Tênis
U de Uno
V de Viagem
W de Wittgenstein
X de Desconhecido
Y de Indizível
Z de Ziguezague

Hilda Hilst costura linguagens e revela os desejos banais

Helder Lima

Nos início dos anos 90, a escritora paulista Hilda Hilst (1930 – 2004) publicou uma trilogia obscena que escandalizou os leitores. Parte da crítica passou a considerá-la erótica, mas esses livros não chegaram a representar um décimo de sua produção, e nem mesmo a classificação ‘erótica’ era apropriada aos temas que ela trata nessas obras.

Um dos livros da série é Contos D’Escárnio/Textos Grotescos, lançado em 1990 e que pode ser encontrado nas livrarias com reedição da Editora Globo. Nas entrelinhas de uma linguagem o mais chula quanto possível, Hilda faz uma costura da linguagem coloquial com valores da cultura que estão sedimentados e contra os quais não fazemos questionamentos, como, por exemplo, o teatro de Shakespeare, que ela toma por objeto de seu riso e escárnio.

A escritora também ousa uma quebra da estrutura do romance tradicional, que historicamente é conhecido por “romance burguês”, aquele que obedece a lógica do começo meio e fim. Em vez disso, ela prefere uma narrativa sem referências do tempo e que é marcada por várias vozes, o que o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Alcir Pécora, que escreve uma nota introdutória, classifica como “mistura babélica de línguas”.

Na prática, o livro é uma anarquia de gêneros que passa pela narrativa longa do romance, pelo conto, teatro e poesia. Brinca até mesmo com a forma das receitas, textos que em geral não têm qualquer pretensão literária.

A linguagem chula, que tanto chocou os leitores, no texto de Hilda é pautada por aquilo que muitas vezes pensamos e nem sequer cogitamos expressar verbalmente, já que parecem tão absurdas de serem comunicadas ao outro.

Na repetição das palavras, como ‘cona’, ‘pau’, ‘verga’ e tantas outras que alimentam o imaginário sobre a genitália humana, Hilda revela para o leitor as ideias banais que muitas vezes estão escondidas nas nossas intenções e desejos. Essa revelação certamente tem um caráter perturbador, já que ela nos faz pensar sobre a nossa própria insignificância.

O narrador é Crasso, alguém que é ao mesmo tempo ninguém. A mãe morreu no dia seguinte ao seu batismo e o pai morreu em cima de uma prostituta em um bordel. Crasso foi criado por um tio, Vlad, que, segundo Hilda, “morreu quando estava sendo chupado por um coroinha”. Essa capacidade de satirizar as situações permite à escritora navegar por assuntos tabus nos dias de hoje, como morte, sodomia, zoofilia e pedofilia. Crasso fala de cada uma dessas coisas sem a menor cerimônia.

A mudança de estilos é marcada por um livro que Clódia, namorada perversa de Crasso, ganhou em um manicômio onde foi presa, depois de ser vista em público pedindo para ver a genitália dos homens. Essa parte reúne receitas e peças de teatro. Outras inserções são os contos de Hans Haeckel, um escritor depressivo contumaz, e do próprio Crasso, que abordam sempre episódios bizarros.

Crítica ao Best-seller

Hilda avisa no começo da história que pretende fazer uma crítica ao mundo dos Best-sellers. “Bem, resolvi escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu”. Mais adiante, ela volta ao tema, agora com pura ironia: “Recolha num vidro de boca larga um pouco de ar de Cubatão e um traque do seu nenê. Compre uma ‘Bicicleta Azul’ e adentre-se algum tempo nas ‘Brumas de Avalon’. É uma boa receita se você quiser ser um escritor vendável”.

Contos D’Escárnio / Textos Grotescos,

Hilda Hilst, Editora Globo, SP, 2002, 136 págs.